04/10/2012

PODES
Podes pintar de negro as flores de primavera
rasgar todas as cartas
queimar livros e recordações
podes fazer do mar um enorme deserto de sal
inventar palavras novas para dizer tristeza e saudade
podes abolir as manhãs de domingo
apagar do céu o brilho do luar
enganar a pele e dizer que é de frio
o arrepio que julgava de paixão
podes deixar de ser
e fazer com que tudo à tua volta
não seja e
não exista
podes fingir que é um jardim colorido
o monte de terra seca que te suja os sapatos
podes ficar ou partir
regressar ou permanecer
podes esperar ou desistir.
Podes fazer tudo aquilo que quiseres
podes mesmo não fazer abolutamente nada.
Só não podes apagar o amor.

 
 Nelleke Verhoeff





30/09/2012




A PARTIR DE AGORA

A partir de agora
nos dias todos que virão
falarei baixinho
de olhos fechados
e o que de dentro de mim sair
será macio e
efémero como um resto de espuma de mar
palavras suspiradas
entrecortadas
pelo ofegar de viver a sonhar.







26/09/2012


O mundo parou.
Tudo ardeu. Em redor
fumegam apenas
fragmentos carbonizados
restos frágeis da matéria que existiu
e que em breve
será também somente cinza.
Escureceu de repente.
Apagou-se a luz do céu
não há sol nem lua
nem coisa nenhuma
que ajude a encontrar
a rua onde se viveu
amigos evaporados
e sabores recordados.
E que silêncio neste instante!
Ao longe
ouvem-se sons tristes e murmurados
entoados por um coro de anjos assustados.
Procuro o meu
onde estará
ele prometeu
ser a minha companhia
de noite e de dia.
E subitamente
começa a chover
mas a chuva é morna e salgada
sabe a lágrimas de gente
que existe indiferente
sabe a vida adormecida
num travo amargo de paixão esquecida. 






23/09/2012







PROCURA


Tinhas os olhos encharcados de chuva
e a voz abafada pelo vento.
Quase não te reconhecia
não fosse a tua mão quente
no meu peito procurando
a memória de um sol ardente.















20/09/2012


Não fales.
Seria redundante.
Toda a gente sabe que o luar é suave e redondo como uma barriga grávida de amor.

Man Ray

18/09/2012

SINÓNIMO
Começou por ser uma constatação aterradora. No final, foi uma fantástica descoberta. Naquela noite, percebi que não tinha mãos. Foi mais ou menos assim: acordei estremunhada com um ruído qualquer e esbocei o movimento de esfregar os olhos, para clarear um pouco o olhar carregado de sono. Senti uma massa volumosa e macia a cobrir-me o rosto, o peito e os ombros. Em pânico, fiz por acreditar que estava a sonhar, mas corri para o espelho. Olhei-me e vi o que nunca pensei ser possível ver. Na extremidade de cada um dos meus braços, pendia uma enorme asa. Levantei os braços e vi-as reflectidas no espelho: duas asas brancas e macias, ondulando suavemente. Não sei como consegui mexer-me, descolar-me do chão e voltar para a cama. Mas lembro-me muito bem de me ter deitado e cruzado as asas sobre o peito. Acho mesmo que foi nessa noite que descobri (e me convenci) de que escrever é sinónimo de voar. 





17/09/2012

REGRESSO
Missão cumprida. O povo tinha, enfim, acordado. Um rio de gente foi desaguando nas praças daquele país ao ritmo de canções de luta e justiça, de coesão e indignação. A acomodação e a mudez tinham, finalmente, sido vencidas. Depois de tão extenuante trabalho, achou que merecia uma recompensa. Por isso, ofereceu a si própria uns instantes de repouso. Mas quando a urgência de partir se tornou mais forte do que o prazer do descanso, levantou-se num ápice, juntou rapidamente os escassos pertences e fez-se ao céu. Era tempo de regressar para as estrelas, voltar a ser uma delas e retomar o seu verdadeiro nome: Coragem.

Nelleke Verhoeff