23/09/2012







PROCURA


Tinhas os olhos encharcados de chuva
e a voz abafada pelo vento.
Quase não te reconhecia
não fosse a tua mão quente
no meu peito procurando
a memória de um sol ardente.















20/09/2012


Não fales.
Seria redundante.
Toda a gente sabe que o luar é suave e redondo como uma barriga grávida de amor.

Man Ray

18/09/2012

SINÓNIMO
Começou por ser uma constatação aterradora. No final, foi uma fantástica descoberta. Naquela noite, percebi que não tinha mãos. Foi mais ou menos assim: acordei estremunhada com um ruído qualquer e esbocei o movimento de esfregar os olhos, para clarear um pouco o olhar carregado de sono. Senti uma massa volumosa e macia a cobrir-me o rosto, o peito e os ombros. Em pânico, fiz por acreditar que estava a sonhar, mas corri para o espelho. Olhei-me e vi o que nunca pensei ser possível ver. Na extremidade de cada um dos meus braços, pendia uma enorme asa. Levantei os braços e vi-as reflectidas no espelho: duas asas brancas e macias, ondulando suavemente. Não sei como consegui mexer-me, descolar-me do chão e voltar para a cama. Mas lembro-me muito bem de me ter deitado e cruzado as asas sobre o peito. Acho mesmo que foi nessa noite que descobri (e me convenci) de que escrever é sinónimo de voar. 





17/09/2012

REGRESSO
Missão cumprida. O povo tinha, enfim, acordado. Um rio de gente foi desaguando nas praças daquele país ao ritmo de canções de luta e justiça, de coesão e indignação. A acomodação e a mudez tinham, finalmente, sido vencidas. Depois de tão extenuante trabalho, achou que merecia uma recompensa. Por isso, ofereceu a si própria uns instantes de repouso. Mas quando a urgência de partir se tornou mais forte do que o prazer do descanso, levantou-se num ápice, juntou rapidamente os escassos pertences e fez-se ao céu. Era tempo de regressar para as estrelas, voltar a ser uma delas e retomar o seu verdadeiro nome: Coragem.

Nelleke Verhoeff








12/09/2012

 
A IMPROBABILIDADE DAS ESTRELAS




… e na décima noite da sua vigília nocturna, finalmente aceitou a improbabilidade de conseguir ver outra vez a mesma estrela. Foi também nesse momento que se deu conta de que o silêncio não é azul, o amor não cheira a flores e a certeza é um conceito profundamente improvável.










11/09/2012

A GRAÇA DA DESGRAÇA
Maria da Graça
corre a vidraça
e vomita para a praça
a tristeza que te
devassa.
Sonhar acordada é assim
deixas queimar o pudim e logo
pensas que é o fim
das manhãs de sol ameno e daquele mundo pequeno
e tão pleno
de amor e calor e outros arrepios a que chamas
cor
os que te vestem de langor
e arrastam em dança mansa
com sorriso solto de criança.
Olhos no pudim
e o olhar no varandim
os sonhos são de jasmim e alecrim
e o fumo denso do pudim queimado
pobre desgraçado
não será o fim
se tirares a mordaça de cetim
e rires com a graça
da desgraça que te devassa
Maria da Graça.

Nicoletta Ceccoli

10/09/2012

FORMA EXACTA
Não precisas de procurar.
Sabes onde estou. Naquele teu bocado de pele
algures entre o pescoço e o ombro
na pequena e morna concavidade
que tem a medida certa dos lábios e
a forma exacta do beijo
do ser
e do amar.