17/09/2012

REGRESSO
Missão cumprida. O povo tinha, enfim, acordado. Um rio de gente foi desaguando nas praças daquele país ao ritmo de canções de luta e justiça, de coesão e indignação. A acomodação e a mudez tinham, finalmente, sido vencidas. Depois de tão extenuante trabalho, achou que merecia uma recompensa. Por isso, ofereceu a si própria uns instantes de repouso. Mas quando a urgência de partir se tornou mais forte do que o prazer do descanso, levantou-se num ápice, juntou rapidamente os escassos pertences e fez-se ao céu. Era tempo de regressar para as estrelas, voltar a ser uma delas e retomar o seu verdadeiro nome: Coragem.

Nelleke Verhoeff








12/09/2012

 
A IMPROBABILIDADE DAS ESTRELAS




… e na décima noite da sua vigília nocturna, finalmente aceitou a improbabilidade de conseguir ver outra vez a mesma estrela. Foi também nesse momento que se deu conta de que o silêncio não é azul, o amor não cheira a flores e a certeza é um conceito profundamente improvável.










11/09/2012

A GRAÇA DA DESGRAÇA
Maria da Graça
corre a vidraça
e vomita para a praça
a tristeza que te
devassa.
Sonhar acordada é assim
deixas queimar o pudim e logo
pensas que é o fim
das manhãs de sol ameno e daquele mundo pequeno
e tão pleno
de amor e calor e outros arrepios a que chamas
cor
os que te vestem de langor
e arrastam em dança mansa
com sorriso solto de criança.
Olhos no pudim
e o olhar no varandim
os sonhos são de jasmim e alecrim
e o fumo denso do pudim queimado
pobre desgraçado
não será o fim
se tirares a mordaça de cetim
e rires com a graça
da desgraça que te devassa
Maria da Graça.

Nicoletta Ceccoli

10/09/2012

FORMA EXACTA
Não precisas de procurar.
Sabes onde estou. Naquele teu bocado de pele
algures entre o pescoço e o ombro
na pequena e morna concavidade
que tem a medida certa dos lábios e
a forma exacta do beijo
do ser
e do amar.


04/09/2012


QUASE ANOITECER
Uma tarde derretida por sol incandescente
[cúmplice demente
de uma rajada de vento 
furiosa e quente]
faz o tempo escorrer na pele
em gotas viscosas de demora.
Que saudades daquela margem
fresca, de sombra verde
e da amora selvagem
que escondi
e da outra que comi
no rio mergulhando 
nua e a estremecer
com os olhos húmidos do quase 
anoitecer.


03/09/2012

SOPRO MUDO
Pedes que te explique, mas juro que não sou capaz, não sei dizer tudo isto. É uma espécie de pulsar muito violento dentro de nós, entendes? Como se tivesses dois corações no peito (o teu e outro que te nasceu, sem dares conta), batendo desenfreadamente. Sentes um impulso inevitável de inspirar com toda a força, levar ao limite a capacidade de te encheres de ar e de mundo e depois, expirar lentamente, de olhos fechados, esperando que o ar que devolves à atmosfera venha carregado das palavras que queres dizer. Às vezes, assim acontece. E é uma festa, uma festa inigualável e perigosamente viciante. Voltas a ter apenas o teu coração de sempre e é o seu ritmo tranquilo que orienta o desenho das letras com que escreves o poema. Outras vezes, nada disso acontece. Expiras, e o que sai de ti é somente um sopro mudo, insípido e estéril, uma golfada de ar gélido e cinzento. Nessas alturas, podes desenhar as letras que quiseres, encher folhas e folhas de papel com palavras alinhadas em inúmeros textos desolados (como este). Mas nunca essas palavras terão o sabor da poesia.





31/08/2012

PÉTALAS
Às vezes falo
e não me consigo ouvir.
Mas sinto pétalas de flor a sair
da minha boca.
Acontece nos dias em que o pensamento me nasce no peito.