11/09/2012

A GRAÇA DA DESGRAÇA
Maria da Graça
corre a vidraça
e vomita para a praça
a tristeza que te
devassa.
Sonhar acordada é assim
deixas queimar o pudim e logo
pensas que é o fim
das manhãs de sol ameno e daquele mundo pequeno
e tão pleno
de amor e calor e outros arrepios a que chamas
cor
os que te vestem de langor
e arrastam em dança mansa
com sorriso solto de criança.
Olhos no pudim
e o olhar no varandim
os sonhos são de jasmim e alecrim
e o fumo denso do pudim queimado
pobre desgraçado
não será o fim
se tirares a mordaça de cetim
e rires com a graça
da desgraça que te devassa
Maria da Graça.

Nicoletta Ceccoli

10/09/2012

FORMA EXACTA
Não precisas de procurar.
Sabes onde estou. Naquele teu bocado de pele
algures entre o pescoço e o ombro
na pequena e morna concavidade
que tem a medida certa dos lábios e
a forma exacta do beijo
do ser
e do amar.


04/09/2012


QUASE ANOITECER
Uma tarde derretida por sol incandescente
[cúmplice demente
de uma rajada de vento 
furiosa e quente]
faz o tempo escorrer na pele
em gotas viscosas de demora.
Que saudades daquela margem
fresca, de sombra verde
e da amora selvagem
que escondi
e da outra que comi
no rio mergulhando 
nua e a estremecer
com os olhos húmidos do quase 
anoitecer.


03/09/2012

SOPRO MUDO
Pedes que te explique, mas juro que não sou capaz, não sei dizer tudo isto. É uma espécie de pulsar muito violento dentro de nós, entendes? Como se tivesses dois corações no peito (o teu e outro que te nasceu, sem dares conta), batendo desenfreadamente. Sentes um impulso inevitável de inspirar com toda a força, levar ao limite a capacidade de te encheres de ar e de mundo e depois, expirar lentamente, de olhos fechados, esperando que o ar que devolves à atmosfera venha carregado das palavras que queres dizer. Às vezes, assim acontece. E é uma festa, uma festa inigualável e perigosamente viciante. Voltas a ter apenas o teu coração de sempre e é o seu ritmo tranquilo que orienta o desenho das letras com que escreves o poema. Outras vezes, nada disso acontece. Expiras, e o que sai de ti é somente um sopro mudo, insípido e estéril, uma golfada de ar gélido e cinzento. Nessas alturas, podes desenhar as letras que quiseres, encher folhas e folhas de papel com palavras alinhadas em inúmeros textos desolados (como este). Mas nunca essas palavras terão o sabor da poesia.





31/08/2012

PÉTALAS
Às vezes falo
e não me consigo ouvir.
Mas sinto pétalas de flor a sair
da minha boca.
Acontece nos dias em que o pensamento me nasce no peito.



28/08/2012

SOMBRA E POEIRA
Se te arrastares pela sombra e poeira
rapidamente o sangue te vai arrefecer.
Não tardará que o reflexo de ti que vês
no espelho
seja tão fino quanto uma folha de papel.
A mesma com que farás
com afinco e tesoura afiada
os recortes exactos
para poderes rever-te
na fileira geométrica de figuras siamesas
a óbvia sequência de todos os que poderias
ter sido
não fosse a sombra e a poeira
a que te entregaste
sem sequer questionar.
 

21/08/2012

APENAS ISSO
De fogo e paixão se fazem os sonhos.
Mas às vezes
cansa-me tanto sonhar!
Preferia dormir.
Perder os sentidos num sono de tempo parado
corpo abandonado
suspenso num fio de energia
transparente
apenas um respirar profundo
existir a dormir, simplesmente
sem memória para evocar
sem sede de querer
sem futuro para adivinhar.
Uma cama de lençois brancos
uma almofada estéril
e um sono sem sonho.
Apenas isso e nada mais.