10/09/2012

FORMA EXACTA
Não precisas de procurar.
Sabes onde estou. Naquele teu bocado de pele
algures entre o pescoço e o ombro
na pequena e morna concavidade
que tem a medida certa dos lábios e
a forma exacta do beijo
do ser
e do amar.


04/09/2012


QUASE ANOITECER
Uma tarde derretida por sol incandescente
[cúmplice demente
de uma rajada de vento 
furiosa e quente]
faz o tempo escorrer na pele
em gotas viscosas de demora.
Que saudades daquela margem
fresca, de sombra verde
e da amora selvagem
que escondi
e da outra que comi
no rio mergulhando 
nua e a estremecer
com os olhos húmidos do quase 
anoitecer.


03/09/2012

SOPRO MUDO
Pedes que te explique, mas juro que não sou capaz, não sei dizer tudo isto. É uma espécie de pulsar muito violento dentro de nós, entendes? Como se tivesses dois corações no peito (o teu e outro que te nasceu, sem dares conta), batendo desenfreadamente. Sentes um impulso inevitável de inspirar com toda a força, levar ao limite a capacidade de te encheres de ar e de mundo e depois, expirar lentamente, de olhos fechados, esperando que o ar que devolves à atmosfera venha carregado das palavras que queres dizer. Às vezes, assim acontece. E é uma festa, uma festa inigualável e perigosamente viciante. Voltas a ter apenas o teu coração de sempre e é o seu ritmo tranquilo que orienta o desenho das letras com que escreves o poema. Outras vezes, nada disso acontece. Expiras, e o que sai de ti é somente um sopro mudo, insípido e estéril, uma golfada de ar gélido e cinzento. Nessas alturas, podes desenhar as letras que quiseres, encher folhas e folhas de papel com palavras alinhadas em inúmeros textos desolados (como este). Mas nunca essas palavras terão o sabor da poesia.





31/08/2012

PÉTALAS
Às vezes falo
e não me consigo ouvir.
Mas sinto pétalas de flor a sair
da minha boca.
Acontece nos dias em que o pensamento me nasce no peito.



28/08/2012

SOMBRA E POEIRA
Se te arrastares pela sombra e poeira
rapidamente o sangue te vai arrefecer.
Não tardará que o reflexo de ti que vês
no espelho
seja tão fino quanto uma folha de papel.
A mesma com que farás
com afinco e tesoura afiada
os recortes exactos
para poderes rever-te
na fileira geométrica de figuras siamesas
a óbvia sequência de todos os que poderias
ter sido
não fosse a sombra e a poeira
a que te entregaste
sem sequer questionar.
 

21/08/2012

APENAS ISSO
De fogo e paixão se fazem os sonhos.
Mas às vezes
cansa-me tanto sonhar!
Preferia dormir.
Perder os sentidos num sono de tempo parado
corpo abandonado
suspenso num fio de energia
transparente
apenas um respirar profundo
existir a dormir, simplesmente
sem memória para evocar
sem sede de querer
sem futuro para adivinhar.
Uma cama de lençois brancos
uma almofada estéril
e um sono sem sonho.
Apenas isso e nada mais.



19/08/2012

FUGIU DE MIM
Fugiu de mim uma andorinha.
Sacudiu as asas e voou.
Não acenou
nem sequer para trás olhou.
Não lhe conheço o destino
mas imagino
que outras primaveras há-de procurar.
Sempre me disseste que foi o ninho do meu peito
que a chamou
e fez ficar.
E ficou. Mas o vento de verão tem hálito incendiário
e quando sopra decidido
deixa um rasto de chamas tão densas
que nenhum orvalho consegue extinguir.
Talvez seja por isso que ela decidiu partir.
Antes que cada erva macia do ninho se fizesse espinho
e com delicado prazer
se espetasse na sua carne a estremecer
a ave frágil da primavera
desfez o ninho seco e moribundo e
sem acordar o peito onde tantas noites dormiu
sacudiu as asas e fugiu.