18/08/2012

SILÊNCIO
Calem-se as mãos porque hoje não quero escrever.
Mora em mim um silêncio que quero preservar.
Longe de palavras  
murmúrios
ou do mais ténue sussurrar.
Livre da tinta negra que a brancura do papel gosta de violar.
Calem-se as mãos.
Deixem-me apenas ouvir o mar.

aurelique.tumblr.com



17/08/2012

TEMPESTADE IMPROVÁVEL
Existe para além da memória uma manhã de verão, acordada no sobressalto de uma tempestade improvável, filha indesejada de uma noite sem estrelas e de um vento oprimido e revoltado. Existe um corpo que se ergue da cama rangente e desliza suavemente pelo soalho de madeira escura, procurando com as mãos a porta que a luz insípida não deixa os olhos encontrar. Com os pés descalços na terra lamacenta, observo os olhares mudos de um rebanho encharcado que espreita por detrás do portão enferrujado e aí se detém, talvez contemplando como eu, os três limoeiros cansados [ontem vaidosos da existência inesperada no meio do laranjal], hoje vergados e dominados pelos grossos pingos de chuva, bofetadas de um só dedo, que lhes castigam os ramos e envergonham o orgulho verde. Vencidos pela exaustão, soltam os filhos maduros [os maiores e mais sumarentos limões], que rolam alegremente pela ladeira abaixo, ingenuamente convencidos que deslizam rumo à liberdade. Quando caem no chão, a pancada seca e abafada da queda mostra-lhes que a vida de um fruto maduro é curta e, então, mirram as sementes, encolhem a polpa e escondem a alma por detrás da grossa casca amarela. Um deles cai desamparadamente aos meus pés, desprotegido e ainda com os vestígios sujos da viagem colados à pele. Peguei nele e garanti-lhe protecção, segredando-lhe que, para mim, nunca será limonada.
Enquanto isso, a chuva aproveita todos os sulcos da terra e corre em jorro barulhento e apressado, na urgência de se juntar ao rio. Ao longe ouve-se um cão ladrar e, mais perto, os galos cantam a alvorada. Há um cinzento selvagem e viscoso que teima em permanecer. O céu desceu, está tão próximo que posso tocar as nuvens, se quiser... tal como fazem as copas das árvores, no topo da serra. 


Belmiro Ribeiro






09/08/2012

BREVE CANÇÃO DO ADEUS                                                       
Na noite de te ver partir
não esperes por mim no cais
vou dormir  sonhar
algo mais
talvez cantarolar
lágrimas e notas musicais
enquanto roubo estrelas do céu
e as costuro num macio e suave véu
que há-de aconchegar a pele
e aquecer a voz molhada
a mesma voz cansada com que te diria 
adeus
se na noite de te ver partir
a saudade me levasse ao cais
e ali ficasse até
não te ver mais.




08/08/2012


Espreita de ti um doce poema de amor.
Observo-te. E vejo letras a
escorrer-te dos olhos.
O rosto encharcado de palavras choradas.
E o peito aberto e inquieto
pedaço de carne ofegante
folha de papel
expectante.




07/08/2012


ALQUIMIA
Maria
que fantasia!
Alquimia?
Procurar alegria
no fundo dessa panela de latão
a que chamas caldeirão?
[e a que te entregas inteira, sussurrando paixão]
Alquimia... que agonia!
O anis não faz feliz
e a canela é só um sabor
nada sabe de ardor ou de amor.
E que farás se o mel endurecer
e nenhum calor for capaz de o derreter?
Pois, alquimia.
Já sabia.
É como magia
agarrar num abraço os ingredientes especiais
soprar-lhes um segredo
para completar o enredo
depois apenas esperar
cantando e cuidando
que todos se envolvam
numa dança fumegante
e finalmente
o instante.
Um orvalho morno aninha-se na pele.
Está pronta a tua magia, Maria.
Que euforia
esta alquimia
mas para mim
não passa de fantasia.
Escorrem-te agora dos dedos densas gotas prateadas
espera
não limpes ainda
deixa-me provar
não custa tentar acreditar
que no fundo do caldeirão
nascem gotas de emoção.
É doce, Maria
esta alquimia
e eu que pensava que era só fantasia.
Que ironia
fizeste magia, Maria
porque sabe a riso e a luar
sabe a lareira e a mar
sabe a todos os instantes que não ousei sonhar.
E o anis faz-me feliz
e a canela é mais do que sabor
arde-me no peito como o amor.
Alquimia, Maria
tinhas razão.
Derrama-me no teu caldeirão
quero derreter-me e
envolver-me com teus ingredientes essenciais
ser cúmplice dos teus segredos especiais
e ver-te à espera
cantando e cuidando
que me evapore em orvalho doce
deixando no fundo do caldeirão
[muito mais do que paixão]
a minha vida líquida
num misterioso elixir
de existir.


04/08/2012


Com a mão trémula
e o peito esquecido da emoção
o homem mudo
[o mesmo que se sobressalta com as mais simples palavras de amor]
agarra no papel e escreve

é na noite do teu olhar
que procuro o céu que é só meu
e sempre que nele vou voar
a lua recebe-me com ternura
e devolve-me
a imagem do homem que me esqueci de ser


Com a mão enfim sossegada
e o peito relembrado da emoção
o homem mudo
[continuando mudo]
dobra meticulosamente a folha de papel
acaricia-a com um toque de paixão
beija-a demoradamente
e deposita-a com carinho
no primeiro caixote de lixo 
que lhe aparece à frente.


Perfilam-se ordenadamente, assumindo um todo de perfeita forma triangular, em cujo vértice se arrumam os corpos secos e moribundos dos mais velhos. Num cortejo fúnebre silencioso, avançam  sem movimento com as cabeças pendentes e choram para dentro a saudade antecipada dos que partem para sempre. Num gesto de amor disfarçado de despedida, apanham com as folhas verdes a sua parte da última luz solar e sopram-na com carinho para os velhos e secos girassóis que acabam de tombar por terra. Ficam inertes, adormecidos na multidão, ondulando com a ténue brisa de verão. Amanhã voltarão a erguer-se com o primeiro raio de sol matinal. Um dia, serão eles o vértice da perfeita forma triangular, serão eles os moribundos chorados no cortejo fúnebre do entardecer.