08/08/2012


Espreita de ti um doce poema de amor.
Observo-te. E vejo letras a
escorrer-te dos olhos.
O rosto encharcado de palavras choradas.
E o peito aberto e inquieto
pedaço de carne ofegante
folha de papel
expectante.




07/08/2012


ALQUIMIA
Maria
que fantasia!
Alquimia?
Procurar alegria
no fundo dessa panela de latão
a que chamas caldeirão?
[e a que te entregas inteira, sussurrando paixão]
Alquimia... que agonia!
O anis não faz feliz
e a canela é só um sabor
nada sabe de ardor ou de amor.
E que farás se o mel endurecer
e nenhum calor for capaz de o derreter?
Pois, alquimia.
Já sabia.
É como magia
agarrar num abraço os ingredientes especiais
soprar-lhes um segredo
para completar o enredo
depois apenas esperar
cantando e cuidando
que todos se envolvam
numa dança fumegante
e finalmente
o instante.
Um orvalho morno aninha-se na pele.
Está pronta a tua magia, Maria.
Que euforia
esta alquimia
mas para mim
não passa de fantasia.
Escorrem-te agora dos dedos densas gotas prateadas
espera
não limpes ainda
deixa-me provar
não custa tentar acreditar
que no fundo do caldeirão
nascem gotas de emoção.
É doce, Maria
esta alquimia
e eu que pensava que era só fantasia.
Que ironia
fizeste magia, Maria
porque sabe a riso e a luar
sabe a lareira e a mar
sabe a todos os instantes que não ousei sonhar.
E o anis faz-me feliz
e a canela é mais do que sabor
arde-me no peito como o amor.
Alquimia, Maria
tinhas razão.
Derrama-me no teu caldeirão
quero derreter-me e
envolver-me com teus ingredientes essenciais
ser cúmplice dos teus segredos especiais
e ver-te à espera
cantando e cuidando
que me evapore em orvalho doce
deixando no fundo do caldeirão
[muito mais do que paixão]
a minha vida líquida
num misterioso elixir
de existir.


04/08/2012


Com a mão trémula
e o peito esquecido da emoção
o homem mudo
[o mesmo que se sobressalta com as mais simples palavras de amor]
agarra no papel e escreve

é na noite do teu olhar
que procuro o céu que é só meu
e sempre que nele vou voar
a lua recebe-me com ternura
e devolve-me
a imagem do homem que me esqueci de ser


Com a mão enfim sossegada
e o peito relembrado da emoção
o homem mudo
[continuando mudo]
dobra meticulosamente a folha de papel
acaricia-a com um toque de paixão
beija-a demoradamente
e deposita-a com carinho
no primeiro caixote de lixo 
que lhe aparece à frente.


Perfilam-se ordenadamente, assumindo um todo de perfeita forma triangular, em cujo vértice se arrumam os corpos secos e moribundos dos mais velhos. Num cortejo fúnebre silencioso, avançam  sem movimento com as cabeças pendentes e choram para dentro a saudade antecipada dos que partem para sempre. Num gesto de amor disfarçado de despedida, apanham com as folhas verdes a sua parte da última luz solar e sopram-na com carinho para os velhos e secos girassóis que acabam de tombar por terra. Ficam inertes, adormecidos na multidão, ondulando com a ténue brisa de verão. Amanhã voltarão a erguer-se com o primeiro raio de sol matinal. Um dia, serão eles o vértice da perfeita forma triangular, serão eles os moribundos chorados no cortejo fúnebre do entardecer.


26/07/2012


           Jen Bliss

23/07/2012

E AGORA?
Isso não se faz, sabes? Aproveitares-te de um momento de distracção da minha parte, para me traíres implacavelmente. Tinha a boca entreaberta, é certo, mas porque estava a saborear com prazer um instante delicioso de uma brisa na pele. Logo te esgueiraste pelo espaço que te deixei disponível, saíste tão repentinamente, que nem tive tempo de te pressentir. Se tivesse podido adivinhar-te, com certeza que cerrava os lábios ou então disfarçava-te, mastigava-te até ficares irreconhecível. E agora, que sugeres que faça? Sabes que há poucas como tu: fortes, impregnadas de uma energia entontecedora, carregadas de uma emoção inigualável. Por isso, não posso desdizer-te. E agora, palavra? O que fazer?


22/07/2012

ESPERA
Espera, não vás ainda, espera um bocadinho, não te deixes arrastar já pela corrente desse rio que tens em ti. Deixa-me nadar, flutuar e velejar na água límpida e doce que te molha o olhar, quando me adivinhas prestes a chegar. Espera um bocadinho, não vás sozinho, acho que te quero acompanhar.

Almada Negreiros