12/07/2012


RESTOS
Tinha no corpo
os restos de uma pele que
não era sua.
Mergulhou no arrepio de
uma onda exaltada
e deixou-se lavar pelo frio salgado
de um mar zangado.
Quando respirar se tornou o
inevitável limite entre
viver e morrer
arrastou-se para a areia seca
e adormeceu ao sol.
Acordou e
já não havia azul
apenas um feixe de luz pálida
filho de uma lua recém-nascida.
Vestiu-se e caminhou
sem rumo e sem música nos passos
levando ainda no corpo cansado
os restos pesados e sobreviventes
de uma pele que
não era sua.


11/07/2012


AGARRAR AS CORES
Vi-o ao longe, braços esticados e mãos inquietas, tentando agarrar todas as cores à sua volta. Aproximei-me e disse-lhe olá. Deu pela minha chegada, ficou muito quieto, pousou em mim aqueles olhos grandes e pretos, de pestanas compridas e enroladas e, da boca de morango fechada, soltou-se de repente um sorriso grande e desdentado. Esticou-se para a frente e estendeu-me os braços. Agarrei-o com carinho, acariciei-lhe as costas mornas e derreti quando encostou a cabeça no meu ombro. Dei-lhe um beijo na bochecha quente e corada, afaguei-lhe os cabelos macios e passeei-o pelo corredor, para que bebesse com os olhos as cores que tanto queria agarrar. Voltamos ao ponto inicial passados alguns minutos. Devolvi-o aos braços da avó orgulhosa, plena de colo e palavras doces. Chama-se António, tem 10 meses – disse, adivinhando-me a pergunta. Respondi-lhe com as palavras que habitualmente se usa para descrever um bebé lindo e encantador. Soprei-lhe um beijo e disse-lhe adeus. Voltei aos meus afazeres, perseguida pelos vestígios da voz da avó, misturados com um deslumbramento que me arrepiava a pele – tem 10 meses e chama-se David.


10/07/2012

POR TUDO, UM TUDO QUASE NADA
Obrigada por me lembrares que a seguir à noite chega sempre a manhã, cinzenta ou ensolarada, tanto faz, desde que chegue vestida de recomeço. Obrigada por me lembrares que os livros continuam a existir, mesmo após a morte de quem os escreve; é infinitamente mais confortável saber que as palavras permanecem, mesmo que se rasgue o caderno onde foram escritas ou o vento as arraste para longe do instante em que foram ditas. Obrigada por me lembrares que as laranjas de verão têm pouco sumo e que de nada serve espremê-las com força, porque apenas se obtêm minúsculas gotas de um líquido sem sabor. Obrigada por me lembrares que voar é o maior sonho de todos, mas que pode ser também a melhor forma de nos perdermos de nós próprios. Obrigada por me lembrares que depois de cair resta apenas levantar a rir, sacudir devagar a poeira colada ao corpo e seguir caminho a cantar. Obrigada por me lembrares que as histórias nem sempre são encantadas, com fadas aladas e bosques verdejantes. Obrigada por me lembrares que o silêncio pode simultaneamente ser o nosso melhor amigo ou aquele que nos esquece, mal desaparecemos na esquina. Por tudo, um tudo quase nada, por nada que desejou ser tudo, mas nunca foi, porque o nada jamais será tudo... obrigada.

Obrigada por me lembrares que depois da noite chega sempre a manhã. Cinzenta ou ensolarada, não interessa, chega sempre vestida de promessa de um novo começo. Obrigada por me lembrares que a vida continua

09/07/2012


DEIXEM PASSAR
Parem o vento teimoso
abatam as aves de verão
e façam do mar um imenso deserto de sal.
Sequem as flores e esqueçam os amores
calem os poetas e amordacem os cantores
cortem as mãos aos pintores
proíbam palavras e lamentos
lágrimas e sofrimentos
fechem no armário os brinquedos das crianças
às mulheres cortem as tranças
e aos homens roubem todas as esperanças.
Envenenem a água das fontes e derrubem as pontes
neutralizem gargalhadas
apodreçam a fruta nas árvores
espalhem espinhos no jardim
assassinem os sonhos
afundem barcos
destruam as casas e arruínem os lares
interditem a paixão e o nascer
e deixem os velhos morrer.
Rasguem bandeiras
destruam ideais
aos bailarinos amputem os pés
abafem hinos, crenças e fés
tirem a luz aos pirilampos
semeiem revolta nos campos
apaguem o luar
e esmaguem todas as estrelas do céu
até ficar escuro como breu
assassinem o futuro e
no final
deixem passar a multidão
este povo sem rosto e sem chão
que desliza sem ruído pelas ruas
deste país moribundo
que já nem é deste mundo
e morrerá em menos de um segundo.


08/07/2012


DOENÇA CRÓNICA
- O que se passa? Andas calado, estás pálido...
- Ando mal disposto. Dói-me a cabeça e sinto-me enjoado e a rebentar.
- Estômago?...
- Não, nada disso.
- Então? Já foste ao médico?
- Tenho um livro dentro de mim.
- Ah?...
- É isso, tenho um livro dentro de mim.
- Pois, está bem... mas isso quer dizer o quê, exactamente?
- Quer dizer que tenho um livro dentro de mim.
- Hum... isso deve doer, não?
- Pois dói, por isso é que ando assim.
- E não fazes nada quanto a isso?
- Escrevo uns textos, uns poemas, de vez em quando...
- E pastilhas, não tomas? Injecções, xaropes, qualquer coisa...
- Não estou doente. Só tenho um livro dentro de mim.
- Olha, e isso já acontece há muito tempo?
- Acho que sim, desde que me conheço como gente, mas só há pouco descobri o motivo desta sensação.
- Não sei como consegues viver com isso...
- É uma coisa crónica, sabes, tem fases calmas e fases mais agudas, como esta.
- Então não tem cura?... Quer dizer, vais morrer com isso dentro de ti?
- Cura tem, mas não é muito acessível... só alguns têm acesso a ela.
- Qual é? Eu ajudo, se for preciso.
- É tirar o livro de dentro de mim.
- Ah... e como é que isso se faz?
- Esperando o momento certo e deixando-o sair livremente, ao seu ritmo.
- Eu ia perguntar por onde é que ele sai, mas acho melhor não... Quando é que achas que o teu vai sair?
- Não sei, talvez nunca saia.
- Acho esta conversa um bocado forte, sabes?
- Imagino que sim.
- Vamos ali à esplanada beber qualquer coisa... umas águas das pedras para ti, que estás enjoado... e não se fala mais nisso do livro, ok?
- Ok, pode ser.
- Vou contar-te os meus planos para as férias... é de férias que tu estás a precisar!
- Pois, se calhar é. Vamos, então.

Pawła Kuczyńskiego

07/07/2012


SEM SENTIDO
Há no silêncio uma caótica mistura de aromas e sabores. Os sentidos lutam entre si mas, depois da batalha, unem-se para declarar a única conclusão possível: nada disto faz sentido. Além disso, é verão e está frio. O que também não faz sentido nenhum.

Nicoletta Ceccoli

06/07/2012

NA PRIMEIRA PESSOA *
Há pessoas assim. Não muitas, talvez. São pessoas que não precisam de estar fisicamente presentes para fazer sentir a sua presença. E essa presença surge, discretamente, sempre que é necessária. São pessoas que não precisam de falar com palavras porque falam com os olhos e é nos olhos do outro que procuram somente o que é preciso saber. São pessoas que não indicam caminhos a seguir, mas que estão sempre na esquina mais próxima, prontas a orientar. São pessoas que desejam para o outro o que desejam para si próprias, sem cobrar a reciprocidade desse desejo. São pessoas que protegem e cuidam, mas deixam voar, ficando a observar esse vôo à distância, com o colo pronto para acolher qualquer queda que possa acontecer.
Num blog que tem vivido de histórias e personagens ficcionadas, escrevo hoje verdadeiramente na primeira pessoa, sem confabulações nem projecções controladas. Sou uma pessoa bastante afastada de religiões, crenças ou fés divinas. Paradoxalmente, sempre acreditei, desde muito nova, que tenho um anjo da guarda. Até há algum tempo atrás, não lhe conhecia o rosto, o corpo, a cor dos cabelos ou o sorriso… apenas sabia que existia e isso era suficiente. Mas um destes dias, numa manhã especialmente ensolarada deste verão cinzento, descobri-o finalmente. Desengane-se quem acha que os anjos não têm sexo… o meu anjo da guarda é mulher e é bonita, simpática, afectuosa e generosa. Há pessoas assim. Não muitas, talvez. Eu tenho uma assim na minha vida. Sempre tive, sem saber. Agora sei: é o meu anjo da guarda.

 Paul Klee

* Para a minha querida E., anjo da guarda, amiga na vida e irmã no coração.