17/07/2012



LEVITAR

Fulgor
lateja no peito
incendeia
e o corpo levita
sem vertigem
sobe até ao limite
como puxado por corda sem nó
arrastado num movimento
vigoroso
imparável
depositado no regaço da
lua
redonda
e expectante. 






16/07/2012

SUBLIMAÇÃO
Temo que ela te ofereça resistência no início, mas não desesperes nem desistas. Acaricia-a primeiro, revolve-a delicadamente até sentires que se abandona, não há dureza que resista ao toque macio das tuas mãos. Quando a sentires leve e solta, quando a agarrares e a sentires desfazer-se entre os teus dedos, está pronta para ti. Escava com cuidado, com uma persistência suave, procura o centro que encontras no ponto exacto em que começas a sentir uma frescura húmida. É exactamente aí. Coloca-as uma por uma, devagar. Primeiro a paixão, depois o deslumbramento, junta a saudade e a expectativa e, por fim, o sonho e a desilusão. Já está. Tapa a cova com a terra que está à volta e rega-a com tudo o que tiveres de melhor - se chorares, será perfeito, sabes? Não precisas de ficar à espera, vai à tua vida e volta daqui a uns meses. Depois do sol de verão, depois do castanho do outono, depois da chuva de inverno. Na próxima primavera, volta. Estará à tua espera. Ainda um pequeno arbusto, talvez. Uma promessa de árvore.


15/07/2012


UM PEIXE SONHADOR
Era uma vez um peixe vermelho que vivia num grande e confortável aquário, com chão de pedras coloridas e imensas plantas exóticas. Era um peixe muito bem tratado e acarinhado, não lhe faltava água limpa, comida - estava até um pouco obeso - e palavras doces da menina sua dona. Tinha tudo para ser um peixe feliz, e era, mas não sempre. Havia momentos em que se aninhava o dia todo num canto do aquário, com as escamas baças e os olhos parados. Era especialmente nessas alturas que sonhava e desejava coisas que, em princípio, não são acessíveis a um peixe que vive num aquário. Naquele dia, sentiu que precisava de um desses momentos de retiro. Como sempre acontecia de manhã bem cedo, a menina alimentou-o, espalhando na água algumas migalhas de comida. Não lhe apeteceu nadar até à superfície para comer. A menina bateu levemente com o dedo no vidro do aquário. Não lhe apeteceu vir ao seu encontro, com a cauda a ondular alegremente, como habitual. Queria estar sozinho e ansiava a hora em que todos saíssem de casa, para ficar sossegado. E assim aconteceu, por volta das oito da manhã. Com o bater da porta da rua, sabia que tinha o dia todo por sua conta. Lembrou-se de uma história que em tempos tinha ouvido contar lá por casa, quando a miúda era mais pequena. Era sobre um peixe com asas e cara de pessoa, que voou até ao cimo de uma torre, onde o esperava uma linda princesa incrédula, a quem ofereceu um espelho. Sempre achou essa história magnífica e nos seus momentos de desconsolo, sonhava em ser o herói dessa aventura, o peixe vermelho destemido e apaixonado que voava até à sua amada. Tomado de uma coragem que não é característica dos peixes – muito menos dos peixes de aquário – decidiu mudar de vida e sentiu que aquele era o momento exacto para o fazer. Levou toda a manhã a trabalhar, arrastando as pequenas pedras coloridas que cobriam o chão do aquário, juntando-as com dificuldade num pequeno monte colorido, aquele que seria a sua mais preciosa ajuda na aventura que estava a começar. Quando tinha já a altura suficiente, nadou até ao cume do monte, apoiou-se solidamente na barbatana caudal, rodou um pouco para olhar em volta, um rápido olhar de despedida do seu pequeno mundo de água doce e plantas artificiais, voltou a rodar, apoiou-se melhor, inspirou profundamente e saltou do aquário. A viagem foi longa – assim lhe pareceu – tão longa, que teve tempo de ansiar pelos sinais das asas a nascer o dorso, tão longa que teve tempo de desesperar por não as sentir nascer, tão longa que teve tempo de perceber que elas nunca iriam aparecer. Caiu com estrondo no soalho de madeira. Arquejou durante uns instantes, lembrou-se da história encantada e da aventura que sonhou, das asas invisíveis que o fariam voar, deu um suspiro e um rápido esticão com a cauda, parou e morreu. Ao fim da tarde, abriu-se a porta de casa e a menina correu para ver o seu peixinho vermelho. O aquário estava vazio e, no chão, via-se um peixe acinzentado no meio de uma poça de água. Os peixes vermelhos não sonham e não voam – principalmente os peixes de aquário.

14/07/2012


SABERÁS
Sabes do amor
apenas a ínfima parte  
que dele inspiras
pequenas gotículas que sorves de um trago
e que nem ao centro de ti
conseguem chegar
porque o deserto do corpo só
logo as absorve com sofreguidão
voltando a sede
num arfar sofrido.
É preciso bebê-lo devagar
deixá-lo escorrer pela garganta
e escolher os cantos que quer saciar
os poros vazios que quer inundar.
E quando de dentro de ti
transborde pelos olhos
o lago em que o teu corpo se afogou
e quando te nascerem flores na ponta dos dedos
saberás
enfim
do amor
e dele poderás inspirar
a sua parte fundamental.

LenaCor

13/07/2012

VOLTAR
Sim, eu sei que vais ficar surpreendida. Mas há coisas que não se antecipam, não se avisam e não se explicam. Hoje era suposto estar calor, é verão. Mas olha lá para fora... céu cinzento, aves mudas, vento forte, árvores tristes, flores desbotadas e sol desaparecido. O mundo nem sempre obedece aos nossos desejos, por vezes parece estar do nosso lado, mas logo damos conta que afinal é indiferente a nós e avança de acordo com as suas próprias vontades. Tal e qual como a vida, que ora nos incita a vibrar intensamente, ora nos agarra e prende numa teia de marasmo. Assim são também o partir e o regressar. Imprevisíveis, inexplicáveis e inaceitáveis.
Volto quando me escreveres uma carta de amor.

12/07/2012


RESTOS
Tinha no corpo
os restos de uma pele que
não era sua.
Mergulhou no arrepio de
uma onda exaltada
e deixou-se lavar pelo frio salgado
de um mar zangado.
Quando respirar se tornou o
inevitável limite entre
viver e morrer
arrastou-se para a areia seca
e adormeceu ao sol.
Acordou e
já não havia azul
apenas um feixe de luz pálida
filho de uma lua recém-nascida.
Vestiu-se e caminhou
sem rumo e sem música nos passos
levando ainda no corpo cansado
os restos pesados e sobreviventes
de uma pele que
não era sua.


11/07/2012


AGARRAR AS CORES
Vi-o ao longe, braços esticados e mãos inquietas, tentando agarrar todas as cores à sua volta. Aproximei-me e disse-lhe olá. Deu pela minha chegada, ficou muito quieto, pousou em mim aqueles olhos grandes e pretos, de pestanas compridas e enroladas e, da boca de morango fechada, soltou-se de repente um sorriso grande e desdentado. Esticou-se para a frente e estendeu-me os braços. Agarrei-o com carinho, acariciei-lhe as costas mornas e derreti quando encostou a cabeça no meu ombro. Dei-lhe um beijo na bochecha quente e corada, afaguei-lhe os cabelos macios e passeei-o pelo corredor, para que bebesse com os olhos as cores que tanto queria agarrar. Voltamos ao ponto inicial passados alguns minutos. Devolvi-o aos braços da avó orgulhosa, plena de colo e palavras doces. Chama-se António, tem 10 meses – disse, adivinhando-me a pergunta. Respondi-lhe com as palavras que habitualmente se usa para descrever um bebé lindo e encantador. Soprei-lhe um beijo e disse-lhe adeus. Voltei aos meus afazeres, perseguida pelos vestígios da voz da avó, misturados com um deslumbramento que me arrepiava a pele – tem 10 meses e chama-se David.