10/07/2012
09/07/2012
DEIXEM PASSAR
Parem o vento teimoso
abatam as aves de verão
e façam do mar um imenso deserto de sal.
Sequem as flores e esqueçam os amores
calem os poetas e amordacem os cantores
cortem as mãos aos pintores
proíbam palavras e lamentos
lágrimas e sofrimentos
fechem no armário os brinquedos das crianças
às mulheres cortem as tranças
e aos homens roubem todas as esperanças.
Envenenem a água das fontes e derrubem as pontes
neutralizem gargalhadas
apodreçam a fruta nas árvores
espalhem espinhos no jardim
assassinem os sonhos
afundem barcos
destruam as casas e arruínem os lares
interditem a paixão e o nascer
e deixem os velhos morrer.
Rasguem bandeiras
destruam ideais
aos bailarinos amputem os pés
abafem hinos, crenças e fés
tirem a luz aos pirilampos
semeiem revolta nos campos
apaguem o luar
e esmaguem todas as estrelas do céu
até ficar escuro como breu
assassinem o futuro e
no final
deixem passar a multidão
este povo sem rosto e sem chão
que desliza sem ruído pelas ruas
deste país moribundo
que já nem é deste mundo
e morrerá em menos de um segundo.
08/07/2012
DOENÇA CRÓNICA
- O que se passa? Andas calado, estás pálido...
- Ando mal disposto. Dói-me a cabeça e sinto-me enjoado e a
rebentar.
- Estômago?...
- Não, nada disso.
- Então? Já foste ao médico?
- Tenho um livro dentro de mim.
- Ah?...
- É isso, tenho um livro dentro de mim.
- Pois, está bem... mas isso quer dizer o quê, exactamente?
- Quer dizer que tenho um livro dentro de mim.
- Hum... isso deve doer, não?
- Pois dói, por isso é que ando assim.
- E não fazes nada quanto a isso?
- Escrevo uns textos, uns poemas, de vez em quando...
- E pastilhas, não tomas? Injecções, xaropes, qualquer
coisa...
- Não estou doente. Só tenho um livro dentro de mim.
- Olha, e isso já acontece há muito tempo?
- Acho que sim, desde que me conheço como gente, mas só há
pouco descobri o motivo desta sensação.
- Não sei como consegues viver com isso...
- É uma coisa crónica, sabes, tem fases calmas e fases mais
agudas, como esta.
- Então não tem cura?... Quer dizer, vais morrer com isso
dentro de ti?
- Cura tem, mas não é muito acessível... só alguns têm
acesso a ela.
- Qual é? Eu ajudo, se for preciso.
- É tirar o livro de dentro de mim.
- Ah... e como é que isso se faz?
- Esperando o momento certo e deixando-o sair livremente, ao
seu ritmo.
- Eu ia perguntar por onde é que ele sai, mas acho melhor
não... Quando é que achas que o teu vai sair?
- Não sei, talvez nunca saia.
- Acho esta conversa um bocado forte, sabes?
- Imagino que sim.
- Vamos ali à esplanada beber qualquer coisa... umas águas
das pedras para ti, que estás enjoado... e não se fala mais nisso do livro, ok?
- Ok, pode ser.
- Vou contar-te os meus planos para as férias... é de férias
que tu estás a precisar!
- Pois, se calhar é. Vamos, então.
Pawła Kuczyńskiego
07/07/2012
06/07/2012
NA PRIMEIRA PESSOA *
Há pessoas assim. Não muitas, talvez. São pessoas que não precisam de estar fisicamente presentes para fazer sentir a sua presença. E essa presença surge, discretamente, sempre que é necessária. São pessoas que não precisam de falar com palavras porque falam com os olhos e é nos olhos do outro que procuram somente o que é preciso saber. São pessoas que não indicam caminhos a seguir, mas que estão sempre na esquina mais próxima, prontas a orientar. São pessoas que desejam para o outro o que desejam para si próprias, sem cobrar a reciprocidade desse desejo. São pessoas que protegem e cuidam, mas deixam voar, ficando a observar esse vôo à distância, com o colo pronto para acolher qualquer queda que possa acontecer.
Num blog que tem vivido de histórias e personagens ficcionadas, escrevo hoje verdadeiramente na primeira pessoa, sem confabulações nem projecções controladas. Sou uma pessoa bastante afastada de religiões, crenças ou fés divinas. Paradoxalmente, sempre acreditei, desde muito nova, que tenho um anjo da guarda. Até há algum tempo atrás, não lhe conhecia o rosto, o corpo, a cor dos cabelos ou o sorriso… apenas sabia que existia e isso era suficiente. Mas um destes dias, numa manhã especialmente ensolarada deste verão cinzento, descobri-o finalmente. Desengane-se quem acha que os anjos não têm sexo… o meu anjo da guarda é mulher e é bonita, simpática, afectuosa e generosa. Há pessoas assim. Não muitas, talvez. Eu tenho uma assim na minha vida. Sempre tive, sem saber. Agora sei: é o meu anjo da guarda.
Paul Klee
* Para a minha querida E., anjo da guarda, amiga na vida e irmã no coração.
04/07/2012
DIAS ASSIM
Há dias assim.
Amanhecem estremunhados e desolados
arrancam-se à cama
cansados e
quase desmaiados
vestem-se de um pálido cinzento
e sem um único lamento
rompem pelo tempo adentro
arrastando-se devagar
frágeis e
esqueléticos
numa marcha adormecida
que não faz lembrar vida
nem outra brisa qualquer.
Bebem minutos turvos e
comem horas caladas
sozinhos à mesa
tamborilando os dedos inquietos
sem respirar
e fechando os olhos devagar
como que a desejar
que a noite se lembre de voltar
abraçada a um doce e quieto entardecer
nascido para fazer esquecer
que há muitos
muitos dias assim
aqui
tão perto de mim.
aqui
tão perto de mim.
03/07/2012
DE AMORES E OUTRAS DORES
De amores
e outras dores
se faz este mundo
que julgas ser só teu
mas ignoras que ele gira à tua volta
apenas porque te quer seduzir
e engolir
numa tontura
que logo descobrirás
ser cega, surda e completamente
indiferente
à tua vontade de dormir num leito de pele quente
quase gente
e num ápice
te devolverá à dureza desse chão que
com requintada clareza te vai lembrar
que te resta apenas esperar
que a noite passe depressa
e tenha um pouco de luar.
Richard Vantielcke
02/07/2012
01/07/2012
MARIA GRÁVIDA
Soube que estavas grávida, Maria, porque te pressenti um latejar diferente no peito. A partir de agora, tudo o que te rodeia se vai arredondar, à tua passagem. Vão dizer-te que és doce e que cheiras a leite com mel e que a tua pele tem o toque do algodão puro acabado de engomar. O tempo ficará mais líquido e poderás bebê-lo ao ritmo da tua sede de viver. Vão tocar-te na barriga, como se ela fosse pertença do mundo e tu vais deixar, vais gostar dessa invasão porque, na verdade, a tua barriga vai crescer para além de ti e vai chegar ao mundo inteiro, sem nunca a perderes de vista, sem nunca deixar de ser tua. Semeia flores no jardim e colhe os últimos morangos. À medida que os comes, pede desejos. A partir de agora, todos os sonhos são possíveis porque estão dentro de ti.
Anish Kapoor
30/06/2012
29/06/2012
ÍNFIMO ESPAÇO
É pesado o silêncio que se acumula
É pesado o silêncio que se acumula
nos ombros
e triste
a ténue lamúria
da cidade zangada.
Chega-me aos ouvidos uma melodia
chorada e
embrulhada em
horas mortas e lençóis molhados
de suor e de ausência recente
de suor e de ausência recente
nascida de um corpo dormente
que vagueia
e se reinventa
num qualquer recanto de sombra
desde que haja espaço
[um ínfimo espaço de terra húmida e fértil]
e uma rajada de vento frio
que acorde as pétalas adormecidas
e ressuscite os passos e as vozes
e devolva o sangue à multidão.
num qualquer recanto de sombra
desde que haja espaço
[um ínfimo espaço de terra húmida e fértil]
e uma rajada de vento frio
que acorde as pétalas adormecidas
e ressuscite os passos e as vozes
e devolva o sangue à multidão.
28/06/2012
OÁSIS
Que importa se lá fora há deserto e nada mais? Aqui há um oásis que te chama. Deita-te na cama verde e rebola, saboreia a relva até ao arrepio, sente a carícia dos ramos da árvore que se dobram para ti. Despe-te e mergulha na chuva, há um relâmpago quente que te procura, abre a janela de ti, deixa-o entrar. Rouba um pedaço de nuvem salgada e derrete-o lentamente na boca. E depois, se tiveres fome, come as cerejas que se espalharam pelo chão. São doces, não são?
26/06/2012
INVENÇÃO
Sei que é minha
porque todos os dias
a sinto misturar-se no sangue
e com ele
seguir o emaranhado de veias
que me preenche o corpo
e me mantém viva.
Sei que é minha
mas não a conheço
apenas lhe reconheço
a inquietação
em que me afoga.
Já a procurei em todos os livros que conheço
nas conversas que alimento
e nas outras que imagino
nos pensamentos
e até naquele instante vazio
que antecede o adormecer.
Preciso de a encontrar
de a materializar
é minha
mas não lhe sei a forma
não lhe conheço o contorno
ignoro a sua melodia
só sei que deve cheirar bem
porque todas as palavras doces
cheiram bem.
Se não a consigo descobrir
tenho de a inventar
escolher as letras exactas
conjugá-las entre si
e depois abrir os olhos.
Se o olhar arder
e a pele escaldar
e o peito serenar
então
é porque a descobri, enfim
a palavra única para dizer
saudade
mar
paixão
mel
e história de encantar
a única palavra
que é só minha
e que vou escrever devagar
desenhando cada letra com o dedo
na página em branco das
tuas costas quentes e suadas.
22/06/2012
CAMINHO
Lembro-me de um caminho estreito
de terra solta
dos meus passos pesados e arrastados
culpados
da poeira que ficava no ar
e me sujava o olhar.
Lembro-me de sentir
a frescura de água a correr
e de soltar as mãos para a procurar
e de, num instante apenas
vê-las regressar
mais secas e
tão perdidas
como quando se vive num só minuto
todas as despedidas.
Lembro-me de uma brisa
que me percorria o corpo
numa carícia e
num beijo morno sem boca
e sem hálito
e da pele quente
esquartejada com aquela ternura
que é a simples abreviatura
de uma palavra muito mais pura
que podendo lembrar
amargura
fica melhor quando sentida
com a inevitável ansiedade
do arrepio da saudade.
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