01/07/2012
MARIA GRÁVIDA
Soube que estavas grávida, Maria, porque te pressenti um latejar diferente no peito. A partir de agora, tudo o que te rodeia se vai arredondar, à tua passagem. Vão dizer-te que és doce e que cheiras a leite com mel e que a tua pele tem o toque do algodão puro acabado de engomar. O tempo ficará mais líquido e poderás bebê-lo ao ritmo da tua sede de viver. Vão tocar-te na barriga, como se ela fosse pertença do mundo e tu vais deixar, vais gostar dessa invasão porque, na verdade, a tua barriga vai crescer para além de ti e vai chegar ao mundo inteiro, sem nunca a perderes de vista, sem nunca deixar de ser tua. Semeia flores no jardim e colhe os últimos morangos. À medida que os comes, pede desejos. A partir de agora, todos os sonhos são possíveis porque estão dentro de ti.
Anish Kapoor
30/06/2012
29/06/2012
ÍNFIMO ESPAÇO
É pesado o silêncio que se acumula
É pesado o silêncio que se acumula
nos ombros
e triste
a ténue lamúria
da cidade zangada.
Chega-me aos ouvidos uma melodia
chorada e
embrulhada em
horas mortas e lençóis molhados
de suor e de ausência recente
de suor e de ausência recente
nascida de um corpo dormente
que vagueia
e se reinventa
num qualquer recanto de sombra
desde que haja espaço
[um ínfimo espaço de terra húmida e fértil]
e uma rajada de vento frio
que acorde as pétalas adormecidas
e ressuscite os passos e as vozes
e devolva o sangue à multidão.
num qualquer recanto de sombra
desde que haja espaço
[um ínfimo espaço de terra húmida e fértil]
e uma rajada de vento frio
que acorde as pétalas adormecidas
e ressuscite os passos e as vozes
e devolva o sangue à multidão.
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