28/06/2012

OÁSIS
Que importa se lá fora há deserto e nada mais? Aqui há um oásis que te chama. Deita-te na cama verde e rebola, saboreia a relva até ao arrepio, sente a carícia dos ramos da árvore que se dobram para ti. Despe-te e mergulha na chuva, há um relâmpago quente que te procura, abre a janela de ti, deixa-o entrar. Rouba um pedaço de nuvem salgada e derrete-o lentamente na boca. E depois, se tiveres fome, come as cerejas que se espalharam pelo chão. São doces, não são?
 

26/06/2012

INVENÇÃO
Sei que é minha
porque todos os dias
a sinto misturar-se no sangue
e com ele
seguir o emaranhado de veias
que me preenche o corpo
e me mantém viva.
Sei que é minha
mas não a conheço
apenas lhe reconheço
a inquietação
em que me afoga.
Já a procurei em todos os livros que conheço
nas conversas que alimento
e nas outras que imagino
nos pensamentos
e até naquele instante vazio
que antecede o adormecer.
Preciso de a encontrar
de a materializar
é minha
mas não lhe sei a forma
não lhe conheço o contorno
ignoro a sua melodia
só sei que deve cheirar bem
porque todas as palavras doces
cheiram bem.
Se não a consigo descobrir
tenho de a inventar
escolher as letras exactas
conjugá-las entre si
e depois abrir os olhos.
Se o olhar arder
e a pele escaldar
e o peito serenar
então
é porque a descobri, enfim
a palavra única para dizer
saudade
mar
paixão
mel
e história de encantar
a única palavra
que é só minha
e que vou escrever devagar
desenhando cada letra com o dedo
na página em branco das
tuas costas quentes e suadas.

22/06/2012

CAMINHO
Lembro-me de um caminho estreito
de terra solta
dos meus passos pesados e arrastados
culpados
da poeira que ficava no ar
e me sujava o olhar.
Lembro-me de sentir
a frescura de água a correr
e de soltar as mãos para a procurar
e de, num instante apenas
vê-las regressar
mais secas e
tão perdidas
como quando se vive num só minuto
todas as despedidas.
Lembro-me de uma brisa
que me percorria o corpo
numa carícia e
num beijo morno sem boca
e sem hálito
e da pele quente
esquartejada com aquela ternura
que é a simples abreviatura
de uma palavra muito mais pura
que podendo lembrar
amargura
fica melhor quando sentida
com a inevitável ansiedade
do arrepio da saudade.



21/06/2012

CARROSSEL
Era um carrossel
à beira-mar
abandonado.
Subi para o dorso do velho cavalo
sujo e enferrujado e
aproveitando uma rajada
de vento
soltei o corpo
balancei
tomei lanço
e rodopiei.
E rodopiando
assim
numa imensa tontura
sem fim
cheguei a mim
e percebi
que o que procurava
sempre esteve ali
num carrossel abandonado
à beira-mar esquecido
dentro do peito guardado
todos os dias sonhado
mas só hoje recordado.

20/06/2012

PALAVRAS DESCARTÁVEIS
Procurou uma folha branca de papel. Vasculhou por toda a casa, em todos os recantos, em todos os fundos de gaveta, mas não encontrou nenhuma. Restou-lhe pegar numa já escrita. Passou horas a apagar as palavras que não queria levar consigo. Só quando conseguiu eliminar de vez todas essas palavras descartáveis é que se tranquilizou. Dobrou a folha cuidadosamente e fez um barco. Levou-o até à praia, empurrou-o pelo mar adentro e, num lanço, saltou e fez-se marinheiro. A viagem estava prestes a começar.

19/06/2012

A PONTE
Era uma vez uma ponte. Uma ponte muito estreita, feita de frágeis traves de madeira, unidas umas às outras com pedaços de corda grossa. Por baixo dela, existia um rio e a ponte servia de meio de comunicação entre as suas duas margens. Por vezes, a ponte sentia-se tão sólida e segura, que quase acreditava ser feita de betão e metal, como as pontes da cidade. Isso acontecia nos dias quentes, nas altura em que o sol fazia secar as suas húmidas traves que, por instantes, rejuvenesciam e se transformavam novamente em pedaços de madeira jovem. Outros dias havia, contudo, que a ponte se sentia muito frágil, dias de chuva e de vento, que a obrigavam a baloiçar de um lado para o outro, fazendo-a ranger de dor em cada movimento do seu esqueleto de madeira gasta. Apesar de não saber exactamente a sua idade, a ponte sabia que era muito idosa, muita água tinha já corrido por debaixo de si, muitas travessias entre margens tinha proporcionado, muitas aventuras e desgraças tinha presenciado. Um dia, ou melhor, uma noite, a ponte sentiu-se doente, tão doente que pensou em desistir e abandonar-se definitivamente às rajadas de vento e aos grossos pingos de chuva que vestiam de inverno aquela noite escura. Tinha ouvido falar que estava a ser construída uma outra ponte a poucos quilómetros de distância, uma ponte moderna, larga, forte e resistente. O pressentimento de que brevemente iria ser substituída agudizava-lhe as dores, tornava-as insuportáveis e, pouco a pouco, foi caindo num estado de entorpecimento geral, que a fez deixar-se abandonar no embalar furioso da tempestade. As suas frágeis traves de madeira apodrecida foram mirrando lentamente, tornando mais soltas as laçadas de corda que as seguravam. De repente, um pedaço de madeira escura soltou-se e caiu no rio, produzindo um ruído semelhante a um gemido. Foi então que, inesperamente, surgiram dois vultos escuros, um em cada margem do rio. A melodia da água a correr foi abafada por um grito, a duas vozes: “Ponte, precisamos de ti!”. Ela acordou sobressaltada daquele sono de abandono, inspirou profundamente, esticou o esqueleto de madeira, alongou os músculos de corda e finalmente percebeu: tinha de trabalhar, duas pessoas queriam encontrar-se. Esticou as suas extremidades, para que subissem com mais facilidade, fez-se forte e sorriu de alegria quando sentiu em si o peso dos passos apressados daqueles que se queriam abraçar.
Esta ponte foi permanentemente desactivada logo que a ponte nova foi inaugurada. Continua no mesmo local, com aspecto velho e gasto, aparentemente inútil. Mas ouvi dizer que certas noites ela ressuscita, volta a ser uma ponte jovem, vaidosa e eficiente, aliada e cúmplice de certas travessias urgentes.


18/06/2012

O MUNDO
Acho que sabes que o mundo não te pertence
porque não cabe inteiro dentro de ti
por isso
de nada vale tentares devorá-lo
e se acaso pensas que
o mundo acabará
quando tu acabares
é um engano, sabes
o mundo teimará
em rodopiar
alegremente
e totalmente indiferente ao facto
de um dia nele teres existido
e o teres querido engolir
como se fosse possível
que ele coubesse inteiro dentro de ti.