21/06/2012

CARROSSEL
Era um carrossel
à beira-mar
abandonado.
Subi para o dorso do velho cavalo
sujo e enferrujado e
aproveitando uma rajada
de vento
soltei o corpo
balancei
tomei lanço
e rodopiei.
E rodopiando
assim
numa imensa tontura
sem fim
cheguei a mim
e percebi
que o que procurava
sempre esteve ali
num carrossel abandonado
à beira-mar esquecido
dentro do peito guardado
todos os dias sonhado
mas só hoje recordado.

20/06/2012

PALAVRAS DESCARTÁVEIS
Procurou uma folha branca de papel. Vasculhou por toda a casa, em todos os recantos, em todos os fundos de gaveta, mas não encontrou nenhuma. Restou-lhe pegar numa já escrita. Passou horas a apagar as palavras que não queria levar consigo. Só quando conseguiu eliminar de vez todas essas palavras descartáveis é que se tranquilizou. Dobrou a folha cuidadosamente e fez um barco. Levou-o até à praia, empurrou-o pelo mar adentro e, num lanço, saltou e fez-se marinheiro. A viagem estava prestes a começar.

19/06/2012

A PONTE
Era uma vez uma ponte. Uma ponte muito estreita, feita de frágeis traves de madeira, unidas umas às outras com pedaços de corda grossa. Por baixo dela, existia um rio e a ponte servia de meio de comunicação entre as suas duas margens. Por vezes, a ponte sentia-se tão sólida e segura, que quase acreditava ser feita de betão e metal, como as pontes da cidade. Isso acontecia nos dias quentes, nas altura em que o sol fazia secar as suas húmidas traves que, por instantes, rejuvenesciam e se transformavam novamente em pedaços de madeira jovem. Outros dias havia, contudo, que a ponte se sentia muito frágil, dias de chuva e de vento, que a obrigavam a baloiçar de um lado para o outro, fazendo-a ranger de dor em cada movimento do seu esqueleto de madeira gasta. Apesar de não saber exactamente a sua idade, a ponte sabia que era muito idosa, muita água tinha já corrido por debaixo de si, muitas travessias entre margens tinha proporcionado, muitas aventuras e desgraças tinha presenciado. Um dia, ou melhor, uma noite, a ponte sentiu-se doente, tão doente que pensou em desistir e abandonar-se definitivamente às rajadas de vento e aos grossos pingos de chuva que vestiam de inverno aquela noite escura. Tinha ouvido falar que estava a ser construída uma outra ponte a poucos quilómetros de distância, uma ponte moderna, larga, forte e resistente. O pressentimento de que brevemente iria ser substituída agudizava-lhe as dores, tornava-as insuportáveis e, pouco a pouco, foi caindo num estado de entorpecimento geral, que a fez deixar-se abandonar no embalar furioso da tempestade. As suas frágeis traves de madeira apodrecida foram mirrando lentamente, tornando mais soltas as laçadas de corda que as seguravam. De repente, um pedaço de madeira escura soltou-se e caiu no rio, produzindo um ruído semelhante a um gemido. Foi então que, inesperamente, surgiram dois vultos escuros, um em cada margem do rio. A melodia da água a correr foi abafada por um grito, a duas vozes: “Ponte, precisamos de ti!”. Ela acordou sobressaltada daquele sono de abandono, inspirou profundamente, esticou o esqueleto de madeira, alongou os músculos de corda e finalmente percebeu: tinha de trabalhar, duas pessoas queriam encontrar-se. Esticou as suas extremidades, para que subissem com mais facilidade, fez-se forte e sorriu de alegria quando sentiu em si o peso dos passos apressados daqueles que se queriam abraçar.
Esta ponte foi permanentemente desactivada logo que a ponte nova foi inaugurada. Continua no mesmo local, com aspecto velho e gasto, aparentemente inútil. Mas ouvi dizer que certas noites ela ressuscita, volta a ser uma ponte jovem, vaidosa e eficiente, aliada e cúmplice de certas travessias urgentes.


18/06/2012

O MUNDO
Acho que sabes que o mundo não te pertence
porque não cabe inteiro dentro de ti
por isso
de nada vale tentares devorá-lo
e se acaso pensas que
o mundo acabará
quando tu acabares
é um engano, sabes
o mundo teimará
em rodopiar
alegremente
e totalmente indiferente ao facto
de um dia nele teres existido
e o teres querido engolir
como se fosse possível
que ele coubesse inteiro dentro de ti.

17/06/2012

BOLO
De laranja? Sim, pode ser. Espera um bocadinho, vou fazer. Fala mais baixinho, senão esqueço-me do mel... e sabes que é um ingrediente fundamental. Sim, deixo-te lamber a colher, mas primeiro promete que o tempo nunca te arrefecerá. Prometes? Toma a colher, então. Agora vai lavar a cara, estás toda lambuzada. Um beijo? Claro, tenho milhões deles para te dar. Agora vai. Deixa-me ligar o forno e saborear devagarinho o doce sabor de ti que me ficou nos lábios.

15/06/2012

DOR
Doutor
por favor
tenho uma dor
preciso de ajuda
a minha vida está muda
de tanto me doer
já não sei o que fazer
acho que é na barriga
mas também me dói o peito
terá sido um mau jeito
ou outra coisa qualquer
não, não é falta de mulher
do amor já nem me lembro
esqueci-o naquele dia
no dia em que ela me disse que já não podia
que não tinha remédio para a minha dor
e partiu levando o único cobertor
e desde esse dia que não durmo
passo as noites a tremer
e acho que é isso que me faz doer
a barriga
ou outra coisa qualquer
doutor
por favor
tire-me esta dor
faço tudo o que mandar
só não tenho dinheiro para pagar
resta-me um pedaço de orgulho 
e uma nesga de dignidade
um cão velho
e a fotografia do casamento
que é o meu único alimento
neste tempo de alheamento
mas de bom grado lhe ofereço
tudo isto que me resta
se em troca me tirar
esta dor de continuar
fazendo de conta que é respirar
este desesperado arfar.

©Phatpuppyart.com

14/06/2012

ACONTECE
Tudo acontece rapidamente ou, pelo menos, assim parece. As nuvens dissipam-se e deixam no céu um ténue vestígio branco, um discreto apelo para que não sejam simplesmente esquecidas. A árvore de sempre, emoldurada pela janela da sala, continua solidamente enterrada no mesmo pedaço de terra, mas balança agora o corpo verde de folhas redondas ao ritmo de uma rajada de vento. O urso de peluche volta a ter os dois olhos de botão e na boneca de pano ainda sem rosto, foi bordado um sorriso vermelho radioso. A água está prestes a ferver na chaleira, os biscoitos são de canela, as mãos estão quentes e o coração sossegado. À noite, de certeza que vai haver luar.