De laranja? Sim, pode ser. Espera um bocadinho, vou fazer. Fala mais baixinho, senão esqueço-me do mel... e sabes que é um ingrediente fundamental. Sim, deixo-te lamber a colher, mas primeiro promete que o tempo nunca te arrefecerá. Prometes? Toma a colher, então. Agora vai lavar a cara, estás toda lambuzada. Um beijo? Claro, tenho milhões deles para te dar. Agora vai. Deixa-me ligar o forno e saborear devagarinho o doce sabor de ti que me ficou nos lábios.
17/06/2012
15/06/2012
DOR
Doutor
Doutor
por favor
tenho uma dor
preciso de ajuda
a minha vida está muda
de tanto me doer
já não sei o que fazer
acho que é na barriga
mas também me dói o peito
terá sido um mau jeito
ou outra coisa qualquer
não, não é falta de mulher
do amor já nem me lembro
esqueci-o naquele dia
no dia em que ela me disse que já não podia
que não tinha remédio para a minha dor
e partiu levando o único cobertor
e desde esse dia que não durmo
passo as noites a tremer
e acho que é isso que me faz doer
a barriga
ou outra coisa qualquer
doutor
por favor
tire-me esta dor
faço tudo o que mandar
só não tenho dinheiro para pagar
resta-me um pedaço de orgulho
e uma nesga de dignidade
um cão velho
e a fotografia do casamento
que é o meu único alimento
neste tempo de alheamento
mas de bom grado lhe ofereço
tudo isto que me resta
se em troca me tirar
esta dor de continuar
fazendo de conta que é respirar
este desesperado arfar.
©Phatpuppyart.com
14/06/2012
ACONTECE
Tudo acontece rapidamente ou, pelo menos, assim parece. As nuvens dissipam-se e deixam no céu um ténue vestígio branco, um discreto apelo para que não sejam simplesmente esquecidas. A árvore de sempre, emoldurada pela janela da sala, continua solidamente enterrada no mesmo pedaço de terra, mas balança agora o corpo verde de folhas redondas ao ritmo de uma rajada de vento. O urso de peluche volta a ter os dois olhos de botão e na boneca de pano ainda sem rosto, foi bordado um sorriso vermelho radioso. A água está prestes a ferver na chaleira, os biscoitos são de canela, as mãos estão quentes e o coração sossegado. À noite, de certeza que vai haver luar.
08/06/2012
Tem espalhado em si
o frio de um inverno inteiro
e a secura do deserto
que engoliu o último oásis que restava.
A boca desenha-se com o mesmo silêncio
de que são feitas as noites sem estrelas
e exala um hálito a flores secas e esquecidas.
O olhar é de vidro
gélido e transparente
lembrando uma janela sem cortinas
aberta para um quarto vazio
nu e desolado.
Caminha sem tocar o chão
o corpo rígido e determinado
puxado por um fio invisível
passivamente arrastado
em linha recta
por um caminho sem curvas nem surpresas.
Tem um braço erguido
e a mão aberta
num aceno mudo e parado.
Não se percebe se saúda alguém
ou se é de uma despedida que se trata
mais o mais certo
é que não seja
nem uma coisa, nem a outra
porque ela está imóvel
e há um arrepio moribundo à sua volta
acho que todos a julgam morta
mas não
não está morta
não está morta
vejo-lhe uns tímidos fios de cabelo a mexer
a dançar
com uma suave brisa que se soltou agora
pelo ar.
pelo ar.
.
Patrick John Mills
03/06/2012
02/06/2012
NÃO CHORES
Não
chores, Maria. Eu sei que dói, mas há-de passar. As aves voltam a voar, depois
de caírem da árvore. Apenas têm de ficar paradas uns momentos para recuperar da
vertigem da queda, inertes, aparentemente mortas. Mas depois, estremecem,
sacodem as asas, levantam a cabeça em direcção ao céu e saltam! Contigo vai ser
igual. Trata as feridas com doçura, massaja o corpo dorido com suavidade, deita
fora as recomendações inúteis e os remédios amargos, bebe antes um chá quente e
doce. Enfrenta com determinação o buraco que se abriu à tua frente, luta com
ele e faz-lhe sentir que é infinitamente menos importante do que tu. Ele há-de
envergonhar-se e, constrangido, tenho a certeza que se vai encolher aos poucos,
até se tornar num inofensivo grão de poeira, que hás-de soprar com força para
fora da tua vida.
Não
chores mais, Maria. As lágrimas queimam-te a pele e escurecem-te o olhar. Quem
te vê, acha que perdeste o sorriso. Mas tu sabes que ele não está perdido, somente
se escondeu de ti e acho que o fez apenas para que o procurasses. Procura-o,
então. Ele está escondido algures, em qualquer sítio do mundo, pode até ter
tido a astúcia de se esconder dentro de ti! Procura-o, encontra-o e volta a
colocá-lo na boca. Ficas muito mais bonita, quando sorris. E assim sorridente,
voltarás a acreditar que há uma estrela no céu que é só tua, que há árvores que falam com peixes que voam, que a
paixão não é uma invenção, que o amor é o fundamental e que quem te diz o
contrário apenas o faz porque ninguém lhe ensinou que sonhar é respirar.
Não
chores, Maria. Está quase a passar. Vai passar. Dorme um pouco. Arruma as
palavras dentro de ti e escreve histórias.
Fernando Botero
01/06/2012
AMANHÃ
Amanhã será outro dia. Melhor, pior ou igual, não importa. Basta que seja outro dia. Que ao acordar, a relva seja verde e o céu azul. Que haja ninhos nas árvores e gente nas ruas. Que sopre vento para despentear cabelos. Que haja camas com corpos saciados. Que nasça uma nova flor no jardim. Que uma criança durma no colo da mãe. Que as lágrimas sequem. E que a vida continue.
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