26/05/2012

BANHO
Não vale a pena lutares contra isso. É assim mesmo, por mais voltas que dês, por mais estratégias que uses, por mais expectativas que alimentes, de nada serve. Não lutes contra a realidade – afinal não é ela que te acompanha fielmente todos os dias, para onde quer que vás? É quase injusto, tentares ludibriá-la, afrontá-la. E não me atires com aquela ideia da fantasia ser essencial, que é preciso colorir o mundo, mundo esse que devia ser feito de paixão, cumplicidade e sonhos. Isso é um disparate! E que confuso, inquieto e perigoso seria esse teu mundo! Vá, acorda lá... já é dia, levanta-te, vai para banheira e lava bem esses restos nocturnos de emoção que ainda tens agarrados na pele.

Edgar Degas

25/05/2012

SORRISO *
Ana vivia infeliz
porque o que mais queria na vida
era sorrir
mas o problema é que
não tinha dentes para mostrar
e sorrir sem dentes era algo
que não queria experimentar.
Alguém lhe disse que os podia encomendar
achou estranho isso de haver sorrisos à venda
mas dediciu arriscar
e lá foi despachada à procura de dentes para comprar
certa de que depois de o fazer
um sorriso enorme lhe voltaria ao rosto
e assim feliz podia viver.
Voltou
deslumbrada com tantos dentes bonitos que viu
mas cansada e desanimada
porque eram dentes caros
e não os podia comprar.
Assim se conformou
que tudo iria ficar
tal e qual como era
antes de acreditar
que há sorrisos para vender
desde que haja dinheiro para os comprar.

Masaya Horiguchi

 * mais uma prova de que vivemos num país miserável, completamente indiferente à saúde e ao sofrimento dos cidadãos... não somos todos iguais, não... há quem não tenha dinheiro para poder comprar um sorriso feito de dentes saudáveis.

24/05/2012

ESVAZIAR
Nunca soube identificar com exactidão o momento em que decidiu que queria esvaziar. De igual modo, nunca conseguiu descobrir o real motivo de tal decisão. Mas era uma ideia insistente, essa do esvaziamento. Por isso, desde muito cedo se debatia com formas ardilosas, algumas até bizarras, de ficar vazio. No início, não foi difícil. Começou por diariamente ir despindo as inúmeras camadas que, a partir de certa altura, deixaram de lhe fazer falta: futilidades, conversas estéreis, discussões infrutíferas, teorias inúteis, conhecimentos acessórios, atitudes de conveniência e um sem fim de detalhes completamente banais. Passados alguns anos, um olhar atento perceberia facilmente que o seu exterior se encontrava já bem mais liso, tornara-se um homem mais leve e muito menos opaco, mas apenas ligeiramente mais vazio. Decidiu então iniciar uma nova fase, esta bastante mais difícil, a de desbastar continuamente as suas sucessivas camadas internas, até as extinguir por completo. Encontrando uma ponta solta daquilo que achou ser o novelo da sua existência, aproveitou-a e foi puxando cuidadosamente o fio, retirando de si decepções, angústias, solidões inconfessáveis, esperas entediantes, conquistas que não ousou, medos paralisantes e todas as outras nódoas negras que tinha dentro de si. Sentindo-se, ainda assim, demasiado pesado e cheio, virou-se do avesso e sacudiu com vigor todas os restos em decomposição e todas as poeiras da vida. Assim passou mais um longo tempo, trabalhando neste processo, dia após dia, com o afinco de quem acaba de descobrir a sua real vocação. À medida que os dias iam passando, o seu interior ia ficando cada vez mais macio e maleável. Todas as manhãs se olhava no espelho e avaliava a perfeição do seu trabalho: um contorno cada vez mais fino e ténue, uma pele transparente e, principalmente, o olhar progressivamente mais baço, que lhe devolvia a certeza de que tudo estava a ser feito como previsto,  como tinha de ser. Estava cada vez mais vazio e esse sempre fora o objectivo. Tratou de se desfazer rapidamente de tudo o que lhe pertencia, deixou o trabalho, desligou o telefone, queimou os livros, rasgou as cartas e  deu o cão.
Finalmente, era chegado o dia decisivo, o dia tão intensamente desejado. Era o momento de inspirar profundamente, suster a respiração o tempo suficiente para lhe percorrer o resto de pessoa que já era e, de um só fôlego, expirar violentamente, expulsando de si as memórias, os afectos, os beijos, as lágrimas, a esperança e a paixão acumulada durante toda a vida.
Enquanto ainda lhe restava alguma energia, abriu uma cova no jardim, enterrou todos os destroços de si e voltou a fechá-la. Entrou em casa, apagou as luzes e deitou-se na cama. À sua frente, uma noite inteira de chuva, uma noite inteira para desfrutar do prazer de, enfim, estar completamente vazio.
Na manhã seguinte, um raio de sol avivou a brancura de um lençol coberto de uma suave poeira. No centro, um coração que batia ainda, suavemente.
Lá fora, no jardim, no monte de terra revolvida, via-se um pequeno e frágil caule verde claro.



23/05/2012

VIBRAR
Acreditar
que por um
segundo
se pode ser dono do mundo
e ousar
saltar
só pelo prazer de agarrar
de voar e de
vibrar.
                                            
Fernando Botero

22/05/2012

AMOR
Ela disse-me que estava triste
que descobriu que o amor não existe
e perante tal descoberta
não sabe como subsiste
à saudade que de noite a aperta
num abraço frio e furioso
e que de manhã a solta
como um resto de mulher
sonolenta e desnutrida.
Eu disse-lhe que estava errada
que o amor existe e
persiste e
sempre assim será
enquanto houver manhãs de primavera
e janelas abertas de par em par
e uma brisa de mar
que entra em nós
sem ninguém a convidar
e que aí fica
a repousar
e a lembrar
que é de amor que se fala
quando os olhares se entrelaçam
cúmplices e
convictos
de que, no fim dos dias
quando o livro se fechar
nada mais importará
do que ter sabido amar.
Vladimir Kush

21/05/2012

MAR
Eu já te tinha dito, peixinho vermelho. Os peixes não têm asas, nem cordas vocais, nem pele para arrepiar... por isso, não voam, não falam e não sentem. Os peixes nadam! Apenas isso, ora embalados por ondas suaves, ora sobrevivendo a tempestades violentas. Vou levar-te para o mar, está bem? Para o teu mar. Lá, serás mais tu e serás mais feliz.
Nicoletta Ceccoli

20/05/2012


CHAMA
Naquele pequeno instante
que sabiamente fugiu do tempo que corria veloz
e se escondeu num simples pestanejar
sobrevive uma chama
que percorre agora a rua deserta
subindo degraus incertos
tropeçando nas pedras soltas
e, perdida na escuridão,
salta habilmente por uma janela aberta
caindo desamparada no chão de madeira escura
arrastando-se com esforço até ao sítio
onde uma festa acontecia
era uma cama
onde se dançava e gemia
e ali ficou
sossegada e atenta
entre os corpos quentes que festejavam.
Ao longe
ouvia-se o rodopio furioso do tempo
prestes a voltar.
Pouco tempo restava
à chama sobrevivente
e antes que o pestanejar se fizesse olhar
inflamou-se e tornou-se
uma verdadeira chama corajosa
quase fogueira
daquelas que nenhum tempo consegue arrastar.