23/05/2012

VIBRAR
Acreditar
que por um
segundo
se pode ser dono do mundo
e ousar
saltar
só pelo prazer de agarrar
de voar e de
vibrar.
                                            
Fernando Botero

22/05/2012

AMOR
Ela disse-me que estava triste
que descobriu que o amor não existe
e perante tal descoberta
não sabe como subsiste
à saudade que de noite a aperta
num abraço frio e furioso
e que de manhã a solta
como um resto de mulher
sonolenta e desnutrida.
Eu disse-lhe que estava errada
que o amor existe e
persiste e
sempre assim será
enquanto houver manhãs de primavera
e janelas abertas de par em par
e uma brisa de mar
que entra em nós
sem ninguém a convidar
e que aí fica
a repousar
e a lembrar
que é de amor que se fala
quando os olhares se entrelaçam
cúmplices e
convictos
de que, no fim dos dias
quando o livro se fechar
nada mais importará
do que ter sabido amar.
Vladimir Kush

21/05/2012

MAR
Eu já te tinha dito, peixinho vermelho. Os peixes não têm asas, nem cordas vocais, nem pele para arrepiar... por isso, não voam, não falam e não sentem. Os peixes nadam! Apenas isso, ora embalados por ondas suaves, ora sobrevivendo a tempestades violentas. Vou levar-te para o mar, está bem? Para o teu mar. Lá, serás mais tu e serás mais feliz.
Nicoletta Ceccoli

20/05/2012


CHAMA
Naquele pequeno instante
que sabiamente fugiu do tempo que corria veloz
e se escondeu num simples pestanejar
sobrevive uma chama
que percorre agora a rua deserta
subindo degraus incertos
tropeçando nas pedras soltas
e, perdida na escuridão,
salta habilmente por uma janela aberta
caindo desamparada no chão de madeira escura
arrastando-se com esforço até ao sítio
onde uma festa acontecia
era uma cama
onde se dançava e gemia
e ali ficou
sossegada e atenta
entre os corpos quentes que festejavam.
Ao longe
ouvia-se o rodopio furioso do tempo
prestes a voltar.
Pouco tempo restava
à chama sobrevivente
e antes que o pestanejar se fizesse olhar
inflamou-se e tornou-se
uma verdadeira chama corajosa
quase fogueira
daquelas que nenhum tempo consegue arrastar.


18/05/2012


UNS E OUTROS
Há quem passe o dia a varrer o chão e a limpar sanitas, ou a olhar para um computador, ou a despejar contentores de lixo, ou a curar feridas do corpo e da alma, ou a ensinar os filhos dos outros, ou a vigiar o sono dos que dormem, ou a semear e colher, ou a fazer casas, ou a apagar fogos, ou a defender inocentes, ou a fazer almoços e jantares.
E depois há outros, detentores de todos os saberes do mundo e que, do fundo almofadado de um cadeirão confortável, passam o dia a ensinar como se trabalha. No tempo que lhes resta, dão voltas à cabeça procurando uma forma criativa de embelezar o aspecto mórbido e de disfarçar o sabor amargo do dinheiro que recebem no fim de cada mês.  


16/05/2012

DAVID
Tinha o olhar profundo da mãe e a voz doce do pai. Chamava-se David e morava numa casa amarela, numa pequena cidade costeira. Sempre fora conhecido como excêntrico, bizarro no comportamento e estranho nos modos. Andava quase sempre sozinho, mas nunca parecia infeliz ou aborrecido. Falava imenso, mas a maioria das pessoas não chegava a perceber o que dizia… na verdade, falava mais consigo próprio do que com os outros. Dizia-se que era capaz de actos prodigiosos, mas nunca ninguém assistiu a nenhum deles. Mas sabia-se que era capaz de falar com as gaivotas, contar-lhes histórias e era, de facto, um regalo vê-lo sentado na areia, com dezenas de aves à volta, silenciosas e atentas às suas palavras. Também se dizia que era capaz de negociar com o vento e com a chuva, acalmando-os nos seus acessos de fúria invernal e que cantava canções de amor para as árvores em flor que, assim apaixonadas, davam à luz frutos doces e deliciosos.
David tinha muitos sonhos, queria fazer muitas coisas, ir à lua, deitar-se numa nuvem, caminhar sobre o mar… mas só fazia o que lhe apetecia e quando lhe apetecia. E ninguém ousava contrariá-lo porque, na verdade, todos estavam convencidos que, naquele rapaz de 18 anos de olhar profundo e voz doce, havia um dedo do diabo.
Certa manhã, David subiu com determinação ao cimo de um penhasco debruçado sobre o mar e aproximou-se da berma, arrastando-se lentamente até ficar apenas com metade dos pés na terra; verificou com satisfação que o vento não tinha faltado ao combinado, sentindo o corpo ondular, para a frente e para trás. Flectiu ligeiramente as pernas, encheu o peito de ar e saltou.
No dia seguinte, os meios de comunicação social informaram que o corpo de um jovem fora encontrado no mar, falando-se de queda acidental, especulando-se com a hipótese de suicídio. Tudo isto com imensas entrevistas a vizinhos e conhecidos, que asseguravam que se tratava de um excelente rapaz, embora um bocado amalucado.
Ninguém se lembrou, entretanto, de que ele talvez só quisesse voar.

15/05/2012

ERA UMA VEZ
Conta-me uma história bonita
cheia de surpresas e aventuras
com fadas e heróis
e desejos e magias
e conquistas e vitórias.
Quando estiveres quase no fim
devo já ter adomecido
por isso sussurra-me ao ouvido
o resto dessa história bonita
e inventa-lhe um final feliz.