18/05/2012


UNS E OUTROS
Há quem passe o dia a varrer o chão e a limpar sanitas, ou a olhar para um computador, ou a despejar contentores de lixo, ou a curar feridas do corpo e da alma, ou a ensinar os filhos dos outros, ou a vigiar o sono dos que dormem, ou a semear e colher, ou a fazer casas, ou a apagar fogos, ou a defender inocentes, ou a fazer almoços e jantares.
E depois há outros, detentores de todos os saberes do mundo e que, do fundo almofadado de um cadeirão confortável, passam o dia a ensinar como se trabalha. No tempo que lhes resta, dão voltas à cabeça procurando uma forma criativa de embelezar o aspecto mórbido e de disfarçar o sabor amargo do dinheiro que recebem no fim de cada mês.  


16/05/2012

DAVID
Tinha o olhar profundo da mãe e a voz doce do pai. Chamava-se David e morava numa casa amarela, numa pequena cidade costeira. Sempre fora conhecido como excêntrico, bizarro no comportamento e estranho nos modos. Andava quase sempre sozinho, mas nunca parecia infeliz ou aborrecido. Falava imenso, mas a maioria das pessoas não chegava a perceber o que dizia… na verdade, falava mais consigo próprio do que com os outros. Dizia-se que era capaz de actos prodigiosos, mas nunca ninguém assistiu a nenhum deles. Mas sabia-se que era capaz de falar com as gaivotas, contar-lhes histórias e era, de facto, um regalo vê-lo sentado na areia, com dezenas de aves à volta, silenciosas e atentas às suas palavras. Também se dizia que era capaz de negociar com o vento e com a chuva, acalmando-os nos seus acessos de fúria invernal e que cantava canções de amor para as árvores em flor que, assim apaixonadas, davam à luz frutos doces e deliciosos.
David tinha muitos sonhos, queria fazer muitas coisas, ir à lua, deitar-se numa nuvem, caminhar sobre o mar… mas só fazia o que lhe apetecia e quando lhe apetecia. E ninguém ousava contrariá-lo porque, na verdade, todos estavam convencidos que, naquele rapaz de 18 anos de olhar profundo e voz doce, havia um dedo do diabo.
Certa manhã, David subiu com determinação ao cimo de um penhasco debruçado sobre o mar e aproximou-se da berma, arrastando-se lentamente até ficar apenas com metade dos pés na terra; verificou com satisfação que o vento não tinha faltado ao combinado, sentindo o corpo ondular, para a frente e para trás. Flectiu ligeiramente as pernas, encheu o peito de ar e saltou.
No dia seguinte, os meios de comunicação social informaram que o corpo de um jovem fora encontrado no mar, falando-se de queda acidental, especulando-se com a hipótese de suicídio. Tudo isto com imensas entrevistas a vizinhos e conhecidos, que asseguravam que se tratava de um excelente rapaz, embora um bocado amalucado.
Ninguém se lembrou, entretanto, de que ele talvez só quisesse voar.

15/05/2012

ERA UMA VEZ
Conta-me uma história bonita
cheia de surpresas e aventuras
com fadas e heróis
e desejos e magias
e conquistas e vitórias.
Quando estiveres quase no fim
devo já ter adomecido
por isso sussurra-me ao ouvido
o resto dessa história bonita
e inventa-lhe um final feliz.

14/05/2012


ACREDITAR
Enquanto houver um sonho de infância por realizar
repetidamente acordado na primeira cereja saboreada
enquanto houver uma multidão a dançar na rua
ao som de risos e palmas ruidosas
e uma bandeira colorida para agitar
por uma ideia que nem o tempo fez desbotar
enquanto houver um sonho para acarinhar
e teimar
com a realidade imposta pelos que já não sabem sonhar
enquanto houver um mar inteiro para beber
em grandes goles de ondas frescas e salgadas
numa noite de luar de silêncio e de abraços
enquanto houver primavera
e um ninho no beiral da janela
e árvores  carregadas de flores e vento
enquanto houver um céu no olhar
sorrisos generosos
livros para ler
e palavras para dizer
e ouvir
enquanto houver barrigas grávidas de filhos desejados
crianças para embalar
canções para cantar
e colos para oferecer
enquanto houver casas com lareira
e camas sem lençóis
e amantes sem frio
decididos a matar a saudade com beijos doces
como se esse fosse o único propósito da vida
enquanto houver calor e amor
enquanto houver paixão
é preciso acreditar.

Constantin Brancusi

13/05/2012

INGENUIDADE
Que ingenuidade... com tanto que já andaste, é escandalosamente ingénuo que assim penses. Só porque as cortinas da janela não se mexeram toda a tarde, não significa que o vento deixou de existir... isso aconteceu porque a deixaste fechada! Experimenta abrir a janela... verás como as cortinas dançam, suavemente onduladas pela melodia desta brisa de primavera.





11/05/2012

BOLO *
Ficou lindo. Doce e macio como ela gosta, como ela é. Em forma de coração e com cobertura de chocolate. Por dentro, é colorido, tem camadas alternadas de ternura e de encantamento, pedacinhos de fantasia e um leve travo de cumplicidade. Decorei-o com malmequeres e espalhei em toda a superfície milhares de beijos doces e um abraço apertado no centro.



* Para a Mariana, com todo o amor do mundo

09/05/2012

UMA CASA 
Era um bairro de pequenas casas antigas, umas dez talvez. Impecavelmente restauradas, com telhados novos, paredes pintadas, madeiras limpas e metais polidos. Todas exibiam vaidosamente um pequeno jardim à frente, repleto de flores e relva cuidada onde, nos dias de calor, crianças barulhentas brincavam e cães ladravam. Tinham roupa lavada nos estendais, mulheres à janela, bicicletas encostadas, campainhas que tocavam, gente a entrar e a sair, todos os dias, a toda a hora.
Era um bairro bonito e convidativo, não fosse aquela casa... a casa mais triste do bairro. Tinha um aspecto desolado, com cortinas amarelecidas e esfarrapadas que lhe davam um olhar de animal abandonado. O rosto, onde se viam ainda ténues restos de azul claro, era marcado por fortes rugas de humidade e tinta descascada. O jardim era um amontoado de ervas daninhas e lixo de toda a espécie. Era uma casa parada e deprimida, incapaz de emocionar quem quer que fosse, mesmo aqueles que se detinham à sua frente, olhando-a e abanando a cabeça com ar reprovador. Era uma casa que assistia ao passar do tempo completamente imóvel, vazia de qualquer indício de vida. 
Numa noite de primavera, quando todas as casas tinham já adormecido, uma mão surgiu da escuridão, aproximou-se da casa triste, entrou por uma janela sem vidros e depositou um fósforo aceso no seu coração.

Sergio Membrillas