14/05/2012


ACREDITAR
Enquanto houver um sonho de infância por realizar
repetidamente acordado na primeira cereja saboreada
enquanto houver uma multidão a dançar na rua
ao som de risos e palmas ruidosas
e uma bandeira colorida para agitar
por uma ideia que nem o tempo fez desbotar
enquanto houver um sonho para acarinhar
e teimar
com a realidade imposta pelos que já não sabem sonhar
enquanto houver um mar inteiro para beber
em grandes goles de ondas frescas e salgadas
numa noite de luar de silêncio e de abraços
enquanto houver primavera
e um ninho no beiral da janela
e árvores  carregadas de flores e vento
enquanto houver um céu no olhar
sorrisos generosos
livros para ler
e palavras para dizer
e ouvir
enquanto houver barrigas grávidas de filhos desejados
crianças para embalar
canções para cantar
e colos para oferecer
enquanto houver casas com lareira
e camas sem lençóis
e amantes sem frio
decididos a matar a saudade com beijos doces
como se esse fosse o único propósito da vida
enquanto houver calor e amor
enquanto houver paixão
é preciso acreditar.

Constantin Brancusi

13/05/2012

INGENUIDADE
Que ingenuidade... com tanto que já andaste, é escandalosamente ingénuo que assim penses. Só porque as cortinas da janela não se mexeram toda a tarde, não significa que o vento deixou de existir... isso aconteceu porque a deixaste fechada! Experimenta abrir a janela... verás como as cortinas dançam, suavemente onduladas pela melodia desta brisa de primavera.





11/05/2012

BOLO *
Ficou lindo. Doce e macio como ela gosta, como ela é. Em forma de coração e com cobertura de chocolate. Por dentro, é colorido, tem camadas alternadas de ternura e de encantamento, pedacinhos de fantasia e um leve travo de cumplicidade. Decorei-o com malmequeres e espalhei em toda a superfície milhares de beijos doces e um abraço apertado no centro.



* Para a Mariana, com todo o amor do mundo

09/05/2012

UMA CASA 
Era um bairro de pequenas casas antigas, umas dez talvez. Impecavelmente restauradas, com telhados novos, paredes pintadas, madeiras limpas e metais polidos. Todas exibiam vaidosamente um pequeno jardim à frente, repleto de flores e relva cuidada onde, nos dias de calor, crianças barulhentas brincavam e cães ladravam. Tinham roupa lavada nos estendais, mulheres à janela, bicicletas encostadas, campainhas que tocavam, gente a entrar e a sair, todos os dias, a toda a hora.
Era um bairro bonito e convidativo, não fosse aquela casa... a casa mais triste do bairro. Tinha um aspecto desolado, com cortinas amarelecidas e esfarrapadas que lhe davam um olhar de animal abandonado. O rosto, onde se viam ainda ténues restos de azul claro, era marcado por fortes rugas de humidade e tinta descascada. O jardim era um amontoado de ervas daninhas e lixo de toda a espécie. Era uma casa parada e deprimida, incapaz de emocionar quem quer que fosse, mesmo aqueles que se detinham à sua frente, olhando-a e abanando a cabeça com ar reprovador. Era uma casa que assistia ao passar do tempo completamente imóvel, vazia de qualquer indício de vida. 
Numa noite de primavera, quando todas as casas tinham já adormecido, uma mão surgiu da escuridão, aproximou-se da casa triste, entrou por uma janela sem vidros e depositou um fósforo aceso no seu coração.

Sergio Membrillas

08/05/2012

LÁGRIMA
Há muito tempo que tinha uma lágrima presa na garganta. De nunca ter visto a luz do dia, não era uma lágrima líquida, era um cristal de forma bizarra, sem a transparência própria das lágrimas, com um aspecto acinzentado de amargura carbonizada. Acontece que naquele dia, a garganta que abrigava a lágrima incendiou-se... não se sabe como aconteceu, apenas se constatou que a pele começou a arder, a fumegar e, num ápice, o lar tranquilo da lágrima inerte transformou-se numa fogueira de labaredas incontroláveis. E foi então que sucedeu: acordada pelo calor incandescente do incêndio, a lágrima cristalizada começou a amolecer, a derreter, lentamente foi perdendo a forma dura e metálica, foi-se diluindo cada vez mais até se tornar numa gota de água salgada, com aroma de emoção, uma verdadeira lágrima líquida, morna e fremente, pronta a ser chorada. Da garganta incendiada, começou a deslizar uma canção nostálgica em forma de lamento e, agarrando-se a essa melodia murmurada, a lágrima soltou-se, deslizou suavemente pelo peito e caiu num pedaço de chão relvado. Mobilizadas por essa lágrima corajosa, outras lágrimas desconhecidas se foram soltando da garganta fumegante... no chão molhado, formou-se uma poça de água salgada e enérgica que rapidamente se transformou num riacho e depois num rio, rio que fez transbordar o mar, mar que inundou cidades, refrescou pessoas, alagou campos e arrastou para longe amarguras e desencantos. 
Lavado, fresco e tranquilo, o mundo pode finalmente descansar.

06/05/2012

É TEU
Cerra os punhos
e luta
é uma espécie de batalha que
tens de vencer
agarra o lençol branco e amarrotado
e chama a força ao centro de ti 
não importa se é noite ou dia
é o instante que esperavas
pensa no quarto pintado de fresco
e na cama com a colcha que fizeste
podes chorar, não faz mal
mas tens de respirar
dizem-te para ajudar
que está quase a acabar
mas sabes que está ainda a começar
e as mãos que te remexem por dentro
contam agora um, dois, três
e tu só pensas
era uma vez
num país longínquo
uma fada chamada coragem
chamas baixinho
o colo que te acolheu
quando há muito tempo
quiseste descobrir a vida
mas agora
quanta agonia
para fazer nascer o mundo
fechas os olhos
e queres abandonar-te
mas
de repente
um alívio quente
molha-te a pele
e um suave fio de luz 
docemente te penetra o olhar.
Enfim
aquele calor ensanguentado no peito
que cheira a mel
e cheira a ti.
É teu.

Stefano Vitale

05/05/2012

RIO
Dentro de mim há um rio
fresco e
cristalino
onde mergulho de corpo inteiro
e de corpo inteiro me entrego
nadando e
descobrindo
um desejo que não se extingue
nadando e
saboreando
um prazer líquido sem nome.
Nadando
apenas nadando
na água fresca e cristalina
que corre dentro de mim.