08/05/2012

LÁGRIMA
Há muito tempo que tinha uma lágrima presa na garganta. De nunca ter visto a luz do dia, não era uma lágrima líquida, era um cristal de forma bizarra, sem a transparência própria das lágrimas, com um aspecto acinzentado de amargura carbonizada. Acontece que naquele dia, a garganta que abrigava a lágrima incendiou-se... não se sabe como aconteceu, apenas se constatou que a pele começou a arder, a fumegar e, num ápice, o lar tranquilo da lágrima inerte transformou-se numa fogueira de labaredas incontroláveis. E foi então que sucedeu: acordada pelo calor incandescente do incêndio, a lágrima cristalizada começou a amolecer, a derreter, lentamente foi perdendo a forma dura e metálica, foi-se diluindo cada vez mais até se tornar numa gota de água salgada, com aroma de emoção, uma verdadeira lágrima líquida, morna e fremente, pronta a ser chorada. Da garganta incendiada, começou a deslizar uma canção nostálgica em forma de lamento e, agarrando-se a essa melodia murmurada, a lágrima soltou-se, deslizou suavemente pelo peito e caiu num pedaço de chão relvado. Mobilizadas por essa lágrima corajosa, outras lágrimas desconhecidas se foram soltando da garganta fumegante... no chão molhado, formou-se uma poça de água salgada e enérgica que rapidamente se transformou num riacho e depois num rio, rio que fez transbordar o mar, mar que inundou cidades, refrescou pessoas, alagou campos e arrastou para longe amarguras e desencantos. 
Lavado, fresco e tranquilo, o mundo pode finalmente descansar.

06/05/2012

É TEU
Cerra os punhos
e luta
é uma espécie de batalha que
tens de vencer
agarra o lençol branco e amarrotado
e chama a força ao centro de ti 
não importa se é noite ou dia
é o instante que esperavas
pensa no quarto pintado de fresco
e na cama com a colcha que fizeste
podes chorar, não faz mal
mas tens de respirar
dizem-te para ajudar
que está quase a acabar
mas sabes que está ainda a começar
e as mãos que te remexem por dentro
contam agora um, dois, três
e tu só pensas
era uma vez
num país longínquo
uma fada chamada coragem
chamas baixinho
o colo que te acolheu
quando há muito tempo
quiseste descobrir a vida
mas agora
quanta agonia
para fazer nascer o mundo
fechas os olhos
e queres abandonar-te
mas
de repente
um alívio quente
molha-te a pele
e um suave fio de luz 
docemente te penetra o olhar.
Enfim
aquele calor ensanguentado no peito
que cheira a mel
e cheira a ti.
É teu.

Stefano Vitale

05/05/2012

RIO
Dentro de mim há um rio
fresco e
cristalino
onde mergulho de corpo inteiro
e de corpo inteiro me entrego
nadando e
descobrindo
um desejo que não se extingue
nadando e
saboreando
um prazer líquido sem nome.
Nadando
apenas nadando
na água fresca e cristalina
que corre dentro de mim.

04/05/2012

DESCANSO
Depois de um dia inteiro a ser fustigada por frio e tempestades, pode enfim descansar. Envolta num vento delicado e morno, a noite chegou, calma e suave e não tarda a sussurrar-lhe uma bela canção de embalar.

M.D. PERRY

02/05/2012

A LOJA
Quando às nove horas da manhã D. Florinda entrou, soube que o estava a fazer pela última vez. Como sempre, deixou a porta entreaberta, abriu o estore, regou as plantas, sacudiu o pó na secretaria e pôs a tocar Chopin. Por fim, sentou-se na cadeira, provocando o habitual gemido da madeira antiga. Pegou na caneta e começou a escrever. De vez em quando, espreitava pela janela, com um olhar que rapidamente se cansava da paisagem e logo fugia para o aconchego da pequena loja. Assim passava toda a manhã. Ao meio-dia, saía para almoçar, entrava na confeitaria da avenida, sentava-se na mesa do canto e, passados alguns instantes, a empregada trazia-lhe, com um sorriso doce, o almoço de todos os dias - uma torrada e chá de camomila. Comia devagar, folheando distraidamente o jornal. Quando terminava, deixava o dinheiro em cima da mesa e saía, despedindo-se da empregada doce e do patrão carrancudo com um ligeiro aceno de cabeça. O tempo de pausa que sobrava aproveitava-o para passear pela rua, quando o tempo estava bom. Se chovia ou o frio era insuportável, metia-se numa livraria e lia.  Às duas da tarde, pontualmente, voltava para a loja, de novo deixava a porta entreaberta e abria o estore. Habitualmente, este período do dia era destinado a organizar as estantes. Eram apenas duas, encostadas à parede, lado a lado, feitas de madeira escura. Todos os dias D. Florinda executava o mesmo ritual, com empenho e genuína satisfação. Tirava-as cuidadosamente das estantes e colocava-as em cima da secretaria. Limpava o pó, retocava as etiquetas de cada prateleira e voltava a coloca-las no sítio. A organização era cuidadosa, quase obsessiva. Na estante da esquerda, mulheres; na estante da direita, homens. Tanto numa como noutra, a mesma sequência nas quatro prateleiras, de cima para baixo – deslumbramento, paixão, saudade e ruptura. Quando pegou na última para arrumar, aproximou-a do nariz e sentiu o cheiro de papel velho misturado com um longínquo e quase irreconhecível aroma de pétalas de rosa. Colocou-a no respectivo lugar, encheu o peito com um suspiro profundo e foi sentar-se na velha cadeira de madeira. Habitualmente, voltava a pegar na caneta e recomeçava escrever. Mas naquele dia, a partir daquele momento, tudo seria diferente. Colocou em cima da secretaria o embrulho que tinha deixado no chão; cortou o fio e desdobrou o papel grosso. Pegou na placa e ficou a olhar para ela, observando cada letra, juntando uma por uma até chegar à palavra que lhe fez lembrar que aquele não era um dia como outro qualquer. Ao longo de vinte anos, D. Florinda foi proprietária de uma pequena loja, um espaço exíguo, pouco maior do que um quarto, onde acanhadamente cabiam apenas uma secretária, uma cadeira, duas estantes e alguns vasos com plantas. Era uma loja de papeis e envelopes, de várias cores e texturas. Era uma loja de cartas de amor.
Durante muitos anos, D. Florinda escrevia-as por encomenda, personalizando-as com todos os detalhes que o cliente pedia, descrevendo amores arrebatados, desejos ardentes, saudades guardadas, dores dilacerantes ou desilusões insuportáveis. Nos últimos tempos, é verdade que já não tinha clientes; excepto o Sr. Luís, que mora perto do mercado... desde que a mulher morreu, todos os sábados de manhã, bem cedinho, passa pela loja, pede uma carta de saudade, escrita em papel com cheiro a lavanda e vai ao cemitério, deixa-la no túmulo da sua amada; como nunca vê a carta que deixou na semana anterior, a ingenuidade dos seus 87 anos fá-lo acreditar que a falecida a vem buscar e a leva consigo para o seu mundo silencioso - claro que a D. Florinda, todos os sábados, à  hora de almoço, vai sorrateiramente ao cemitério retirar a dita carta pousada com saudade em cima do jazigo e a leva consigo. Quando o negócio começou a abrandar, D. Florinda não desistiu e todos os dias abria a loja, seguindo o mesmo ritual de arrumação e organização; no resto do tempo, ia escrevendo cartas de amor, umas atrás das outras, que depois arrumava cuidadosamente no sítio correcto, consoante o seu conteúdo.
Eram seis da tarde quando D. Florinda se levantou da velha cadeira de madeira, deu uma vista de olhos a cada prateleira, pegou na carteira, fechou o estore, apagou a luz, saiu, fechou a porta à chave e pendurou no puxador a placa branca, com letras pretas: vende-se.
Afastou-se em passo ligeiro, sem nunca olhar para trás. 

Emile Levy
ENFIM
Remou toda a noite. Um pouco antes do sol nascer, viu ao longe o que sonhava há muito. Os músculos doridos, o peito a arfar, a cabeça a sufocar... mas finalmente a chegar. Pousou o remo, recostou-se, fechou os olhos e deixou-se embalar.

Riccardo Guasco

01/05/2012

PROMESSA
Devolve-me o azul sereno do céu e a doçura das manhãs de primavera. Mostrar-te-ei o lugar secreto onde dormem todas as palavras que não são ditas.