24/04/2012


CONTEMPLAÇÃO
Rodou o manípulo, na esperança que não estivesse trancada… mas estava. Se tivesse a chave, seria simples e o caso resolver-se-ia num minuto. Mas a chave há muito que andava perdida, já a tinha procurado em todos os lados, até nos recantos mais escondidos da sua existência. Mas nem sinal daquele objecto metálico, pequeno mas grande, banal e fundamental. Se ao menos os vidros fossem transparentes… sempre podia espreitar lá para dentro! Mas eram espessos e foscos, completamente à prova de qualquer olhar indiscreto. Deu-lhe um encontrão com toda a força, mas a madeira era sólida e ignorou o esforço.
Não lhe ocorreu outra alternativa… sentou-se de frente para ela e ficou a contemplá-la
(recordando todas as vezes que por ela entrou e saiu).


23/04/2012

ÓBVIO
Há qualquer coisa nas palavras dela que me fascina. Principalmente quando as diz com um sorriso, como se dissesse a coisa mais óbvia do mundo.
- Melancolia? Melancolia é uma tristeza doce.


Albert Asensio

22/04/2012


PARTO SEM DOR
... e ao terceiro dia de agonia, Clara choveu. Num ápice, aproveitando uma rajada forte de vento, de um só fôlego, livrou-se do ar inchado, do tom acinzentado e do peso das formas. Iluminada por uma trovoada de primavera, deu à luz milhões de minúsculas gotas de água, expulsando-as de si, espalhando-as na atmosfera, devolvendo-as ao mundo original. Ficou a vê-las cair, pequeninas, ingénuas e desprotegidas. Soprou-lhes um beijo, suspirou de alívio e sorriu. Um dia, todas elas voltariam a si.
  

21/04/2012

ROUBA-ME
Amanhã bem cedinho
        rouba de mim o afago deste fogo
                e num abraço murmurado
                          despe de mim 
                                  o vestido da saudade.
Frida Kahlo

19/04/2012

SEGMENTOS
Os corpos encostavam-se envergonhados uns aos outros e seguiam disciplinadamente o ritmo imposto pela máquina. O ar cheirava a pessoas.
Repetidamente, a velocidade abrandava, um ruído estridente anunciava a paragem, os corpos mexiam-se e renovavam-se, saíam uns, entravam outros, acomodavam-se o melhor possível e a máquina voltava a acelerar. Uma mulher berrava para o telefone, um bebé chorava, um miúdo assobiava, uma jovem ouvia música, um homem olhava para os sapatos. Eles, sentados, com um encosto de tecido rasgado a separá-los. Ela não sabe que ele lá está. Ele não sabe que ela lá está.  Nenhum deles sabe que, nesta viagem, um não pode existir sem o outro. Quando ela olha pela janela para ver, ele já viu qualquer coisa que o fez pensar e olhar em frente. Quando ela se vira para a frente para pensar, ele volta a precisar de olhar pela janela. A perfeita sincronia de movimentos fazia com que os três – encosto de tecido rasgado, ela e ele – formassem uma peça única, com segmentos que se moviam delicadamente, numa harmonia perfeita.
Os corpos continuavam a lutar desenfreadamente pela conquista de espaço. Precisavam de respirar, estranhavam as formas e o calor dos outros corpos que se lhes colavam. Por isso queriam sair rapidamente dali, acotovelavam-se, precipitavam-se pela porta, fugiam a correr.
Eles continuavam sentados, encostados um ao outro sem o saberem, olhando e pensando alternadamente... como segmentos delicados de um único mecanismo, cúmplice e absolutamente perfeito.

Leah Piken Kolidas

18/04/2012


VISITA-ME
Gostava que hoje viesses visitar-me. Temos muitas coisas para falar, tenho muitas coisas para te contar.
Tens andado desaparecido, não te tenho sentido por aí... que se passa? Andas deprimido? Distraído? Cansado? Ou apenas indiferente?
Se vieres, conto-te as últimas novidades.
Falo-te da Sónia que ontem se deliciou ao jantar com um pão que tirou do saco de lixo da vizinha. Falo-te do Nuno que hoje faltou à escola para poder visitar a mãe no hospital psiquiátrico. Falo-te do António que toda a vida foi músico e na semana passada vendeu o piano e a guitarra para pagar a renda. Também te posso falar da Cristina que durante anos lutou para ter um lar e esta noite vai deitar os filhos numa casa sem tecto nem paredes. E do Alberto que aprendeu a prever o futuro olhando para os sinais que ficam no copo vazio do vinho rasca que bebe. E da D. Olinda que está só, cheia de filhos esquecidos e de netos desconhecidos, acreditando que ainda vive, apenas porque respira. Ou do Miguel que um dia seria médico, não fosse a morte do pai  roubar-lhe o sonho e o sustento da família. Ou da Paula que adorava cantar e agora só sabe chorar. Falo-te com certeza da Isabel, mulher ciumenta e possessiva, que deixou o marido emigrar em busca de um futuro melhor... mas ele perdeu-se de amores em terras estrangeiras e apenas lhe mandou uma carta sem dinheiro nem paixão. Posso falar-te da Esperança, da Catarina, do Fernando... e tantos outros que, de repente, deixaram de ver o nascer do sol. 
Como vês, tenho muitas coisas para te contar... por isso era urgente que hoje viesses visitar-me. Na confortável reclusão em que te tens mantido, não sei te apercebeste que o mundo mudou. E que ameaça mudar ainda mais em cada instante que passa. No que me diz respeito, confesso que já não espero grande coisa da tua parte, sabes que sempre tive muita dificuldade em acreditar nas tuas promessas. Mas há muitas pessoas que te esperam e que desesperam com o teu silêncio e passividade. Por isso acho que chegou a hora de agires, de mostrares o poder que sempre apregoaste ter.
Fico à tua espera, vem logo que possas. Tudo ficará dito, temos a noite inteira à nossa frente. 

17/04/2012


AO CONTRÁRIO
Violeta vivia ao contrário.
Gostava de gatos pretos, mas tinha um canário amarelo numa gaiola dentro de casa.
Gostava de morangos e chocolate, mas era alérgica a ambos.
Gostava de contemplar o mundo, mas era míope e a janela da vizinha era a paisagem mais longínqua que conhecia.
Violeta de nome, ela gostava era de vermelho e de se chamar Rosa!
Gostava de comboios, mas viajava sempre de autocarro.
Gostava de luz, mas morava num rés-do-chão cheio de sombra.
Gostava de praia, mas nunca tinha visto o mar.
Violeta acreditava no amor
mas consta que foi enganada
às vezes trocava o próprio nome
e em vez de Violeta
dizia Violada.
Quando à noite se deitava e desejava
que a manhã rapidamente voltasse
olhava para o relógio
e via os ponteiros a troçar e a recuar.
Violeta gostava de palavras doces
mas um dia o mel acabou
esconderam-se todas as letras numa gaveta
e Violeta nunca mais falou.
Ismael Nery