21/04/2012

ROUBA-ME
Amanhã bem cedinho
        rouba de mim o afago deste fogo
                e num abraço murmurado
                          despe de mim 
                                  o vestido da saudade.
Frida Kahlo

19/04/2012

SEGMENTOS
Os corpos encostavam-se envergonhados uns aos outros e seguiam disciplinadamente o ritmo imposto pela máquina. O ar cheirava a pessoas.
Repetidamente, a velocidade abrandava, um ruído estridente anunciava a paragem, os corpos mexiam-se e renovavam-se, saíam uns, entravam outros, acomodavam-se o melhor possível e a máquina voltava a acelerar. Uma mulher berrava para o telefone, um bebé chorava, um miúdo assobiava, uma jovem ouvia música, um homem olhava para os sapatos. Eles, sentados, com um encosto de tecido rasgado a separá-los. Ela não sabe que ele lá está. Ele não sabe que ela lá está.  Nenhum deles sabe que, nesta viagem, um não pode existir sem o outro. Quando ela olha pela janela para ver, ele já viu qualquer coisa que o fez pensar e olhar em frente. Quando ela se vira para a frente para pensar, ele volta a precisar de olhar pela janela. A perfeita sincronia de movimentos fazia com que os três – encosto de tecido rasgado, ela e ele – formassem uma peça única, com segmentos que se moviam delicadamente, numa harmonia perfeita.
Os corpos continuavam a lutar desenfreadamente pela conquista de espaço. Precisavam de respirar, estranhavam as formas e o calor dos outros corpos que se lhes colavam. Por isso queriam sair rapidamente dali, acotovelavam-se, precipitavam-se pela porta, fugiam a correr.
Eles continuavam sentados, encostados um ao outro sem o saberem, olhando e pensando alternadamente... como segmentos delicados de um único mecanismo, cúmplice e absolutamente perfeito.

Leah Piken Kolidas

18/04/2012


VISITA-ME
Gostava que hoje viesses visitar-me. Temos muitas coisas para falar, tenho muitas coisas para te contar.
Tens andado desaparecido, não te tenho sentido por aí... que se passa? Andas deprimido? Distraído? Cansado? Ou apenas indiferente?
Se vieres, conto-te as últimas novidades.
Falo-te da Sónia que ontem se deliciou ao jantar com um pão que tirou do saco de lixo da vizinha. Falo-te do Nuno que hoje faltou à escola para poder visitar a mãe no hospital psiquiátrico. Falo-te do António que toda a vida foi músico e na semana passada vendeu o piano e a guitarra para pagar a renda. Também te posso falar da Cristina que durante anos lutou para ter um lar e esta noite vai deitar os filhos numa casa sem tecto nem paredes. E do Alberto que aprendeu a prever o futuro olhando para os sinais que ficam no copo vazio do vinho rasca que bebe. E da D. Olinda que está só, cheia de filhos esquecidos e de netos desconhecidos, acreditando que ainda vive, apenas porque respira. Ou do Miguel que um dia seria médico, não fosse a morte do pai  roubar-lhe o sonho e o sustento da família. Ou da Paula que adorava cantar e agora só sabe chorar. Falo-te com certeza da Isabel, mulher ciumenta e possessiva, que deixou o marido emigrar em busca de um futuro melhor... mas ele perdeu-se de amores em terras estrangeiras e apenas lhe mandou uma carta sem dinheiro nem paixão. Posso falar-te da Esperança, da Catarina, do Fernando... e tantos outros que, de repente, deixaram de ver o nascer do sol. 
Como vês, tenho muitas coisas para te contar... por isso era urgente que hoje viesses visitar-me. Na confortável reclusão em que te tens mantido, não sei te apercebeste que o mundo mudou. E que ameaça mudar ainda mais em cada instante que passa. No que me diz respeito, confesso que já não espero grande coisa da tua parte, sabes que sempre tive muita dificuldade em acreditar nas tuas promessas. Mas há muitas pessoas que te esperam e que desesperam com o teu silêncio e passividade. Por isso acho que chegou a hora de agires, de mostrares o poder que sempre apregoaste ter.
Fico à tua espera, vem logo que possas. Tudo ficará dito, temos a noite inteira à nossa frente. 

17/04/2012


AO CONTRÁRIO
Violeta vivia ao contrário.
Gostava de gatos pretos, mas tinha um canário amarelo numa gaiola dentro de casa.
Gostava de morangos e chocolate, mas era alérgica a ambos.
Gostava de contemplar o mundo, mas era míope e a janela da vizinha era a paisagem mais longínqua que conhecia.
Violeta de nome, ela gostava era de vermelho e de se chamar Rosa!
Gostava de comboios, mas viajava sempre de autocarro.
Gostava de luz, mas morava num rés-do-chão cheio de sombra.
Gostava de praia, mas nunca tinha visto o mar.
Violeta acreditava no amor
mas consta que foi enganada
às vezes trocava o próprio nome
e em vez de Violeta
dizia Violada.
Quando à noite se deitava e desejava
que a manhã rapidamente voltasse
olhava para o relógio
e via os ponteiros a troçar e a recuar.
Violeta gostava de palavras doces
mas um dia o mel acabou
esconderam-se todas as letras numa gaveta
e Violeta nunca mais falou.
Ismael Nery

16/04/2012

CALAR
Olhou para ela duramente, sentindo que do peito nascia uma fúria que ameaçava queimar-lhe rapidamente a garganta. Abriu a boca, mas saiu apenas um murmúrio. Melhor assim. Ela continuava inerte, numa apatia patológica. Pousou-a perto das outras e ofereceu-lhe um último olhar. Melhor assim, não dizer. Que ingenuidade... esperar que uma pedra vibre e se amacie.
Virou costas, engoliu as palavras, meteu as mãos nos bolsos e foi.

15/04/2012

SONHO
Hoje apetece-me sonhar com flores e sei que vou sonhar com flores.
Há dois factos que me parecem legitimar tamanha certeza.
No livro que ando a ler, o autor diz qualquer coisa como podes conseguir dominar tudo, até os impulsos mais primitivos, mas os sonhos nunca conseguirás dominar, mesmo que neles te surjam os fantasmas mais assustadores. 
Por outro lado, li algures num artigo científico que é possível controlar o que sonhamos, bastando para isso que façamos um determinado conjunto de exercícios de concentração, de modo organizado e continuado, no momento imediatamente anterior a adormecermos.
Assim sendo, acho que não restam dúvidas... a mim, não restam.
Já com a cabeça na almofada, farei afincadamente o tal conjunto de exercícios... sem receio de não ter sucesso... porque se o meu esforço não for suficiente, tenho a certeza que o Haruki Murakami tem toda a razão... os sonhos não se podem dominar.
Por isso hoje, inevitavelmente, vou sonhar com flores.
Fernando Forero

13/04/2012

A PONTE
Hoje de manhã, bem cedinho, abri a janela e vi o arco-íris.
Deixei-me estar... observando... absorvendo. 
Sacudi de mim a poeira científica que me fez lembrar da ilusão de óptica, dos aborrecidos conceitos de dispersão, refracção e reflexão da luz.
Passei pela lenda do pote de ouro que espera aquele que for capaz de descobrir onde acaba o arco colorido.
Lembrei-me da mágica ponte entre o céu e a terra, entre a alma e o corpo... e aí fiquei: uma colorida ponte entre nós.