16/04/2012

CALAR
Olhou para ela duramente, sentindo que do peito nascia uma fúria que ameaçava queimar-lhe rapidamente a garganta. Abriu a boca, mas saiu apenas um murmúrio. Melhor assim. Ela continuava inerte, numa apatia patológica. Pousou-a perto das outras e ofereceu-lhe um último olhar. Melhor assim, não dizer. Que ingenuidade... esperar que uma pedra vibre e se amacie.
Virou costas, engoliu as palavras, meteu as mãos nos bolsos e foi.

15/04/2012

SONHO
Hoje apetece-me sonhar com flores e sei que vou sonhar com flores.
Há dois factos que me parecem legitimar tamanha certeza.
No livro que ando a ler, o autor diz qualquer coisa como podes conseguir dominar tudo, até os impulsos mais primitivos, mas os sonhos nunca conseguirás dominar, mesmo que neles te surjam os fantasmas mais assustadores. 
Por outro lado, li algures num artigo científico que é possível controlar o que sonhamos, bastando para isso que façamos um determinado conjunto de exercícios de concentração, de modo organizado e continuado, no momento imediatamente anterior a adormecermos.
Assim sendo, acho que não restam dúvidas... a mim, não restam.
Já com a cabeça na almofada, farei afincadamente o tal conjunto de exercícios... sem receio de não ter sucesso... porque se o meu esforço não for suficiente, tenho a certeza que o Haruki Murakami tem toda a razão... os sonhos não se podem dominar.
Por isso hoje, inevitavelmente, vou sonhar com flores.
Fernando Forero

13/04/2012

A PONTE
Hoje de manhã, bem cedinho, abri a janela e vi o arco-íris.
Deixei-me estar... observando... absorvendo. 
Sacudi de mim a poeira científica que me fez lembrar da ilusão de óptica, dos aborrecidos conceitos de dispersão, refracção e reflexão da luz.
Passei pela lenda do pote de ouro que espera aquele que for capaz de descobrir onde acaba o arco colorido.
Lembrei-me da mágica ponte entre o céu e a terra, entre a alma e o corpo... e aí fiquei: uma colorida ponte entre nós. 

11/04/2012

COLECCIONADOR
Todos os dias, depois do trabalho, percorria aleatoriamente as ruas da cidade, com um único e fundamental objectivo: colher palavras. Era um obsessivo e incontrolável coleccionador de palavras. Procurava-as em todos os lugares, nos jardins, nos recantos, nas praças, nas esquinas. Era metódico e criterioso na selecção: as palavras neutras, as objectivas, as técnicas, as científicas e todas as outras cuja única utilidade era a de servir para a comunicação quotidiana não lhe interessavam. Escolhia apenas as palavras, ouvidas ou escritas, que eram feitas de afecto. Sempre que se cruzava com uma, apanhava-a cuidadosamente e guardava-a num saco preto que o acompanhava para todo o lado. Havia dias em que a colheita era má, o mundo parecia ter emudecido e a sua tarefa tornava-se árdua e desconcertante… chegou a acontecer voltar para casa com o saco vazio… era o pior que lhe podia suceder. Mas noutros dias, facilmente encontrava palavras interessantes, ora porque o vento soprava na sua direcção e lhas trazia nítidas e quase intactas, ora porque a cidade estava especialmente repleta de apelativas mensagens escritas. Chegava a casa com o saco a abarrotar de palavras inquietas e curiosas. Pousava o saco e ia tirando e colocando em cima da cama cada palavra colhida. Esvaziado o saco, ficava a contemplá-las durante algum tempo, organizava-as depois por categorias e suavemente soprava cada uma para dentro da grande gaveta da cómoda. Depois, dobrava o saco e colocava-o junto à porta de casa, pronto para receber a colheita do dia seguinte. Voltava ao quarto, fechava à chave a gaveta da cómoda, pegava num caderno grande e volumoso, sentava-se na cama e anotava as palavras que tinha colhido.
Um dia, tudo aquilo acabaria. De certo, nessa altura iria sentir-se nostálgico e algo perdido, mas sabia que esse era o único desfecho possível. Quando o caderno grande e volumoso chegasse ao fim, quando não restasse mais espaço para registar qualquer outra palavra, por muito curta que fosse, seria tempo de escancarar a gaveta, de acordar as palavras adormecidas e de as inspirar profundamente, todas, uma por uma. Nessa altura, todas elas passariam a ser suas, a fazer parte de si e da sua vida. Com elas, escreveria então a história que sempre quis escrever.
Lida Moser




09/04/2012

DESPIR
Basta despir o acessório.
Tirar o sobretudo defensivo e depois
ir deitando ao lixo as camadas sucessivas de preconceito, censura, vaidade, cinismo, mentira e autoritarismo.
Suavemente, libertar a fina película de controlo.
Depois
apreciar o prazer da pele nua
arrojada, curiosa e ávida de diversão.
Ser criança. 
Basta despir o acessório.

02/04/2012


VIAGEM
Da vontade de ir
inquieta-me o prazer de partir.
Do desejo de voltar
invade-me a doce alegria de regressar.

Nicoletta Ceccoli

01/04/2012


ACREDITAR
Anita não acredita em Deus. 
Não sabe quando aconteceu ao certo (nem sempre foi assim), mas um dia deixou de acreditar... assim, tranquilamente, sem dramas, nem culpabilidade.
Houve momentos na sua vida, principalmente naqueles em que se impunha tomar uma decisão importante, que desejou ser crente, sentir em si a devoção necessária para colocar a sua vida nas mãos de alguém que todos conhecem, mas que nunca ninguém viu.
Anita gosta do ritmo das orações na missa, mas quando se concentra no conteúdo de uma avé-maria, não consegue encontrar significado nas palavras desse murmúrio colectivo.
Não há nada a fazer... Anita não acredita em Deus. 
Mas acredita que tem um anjo.