02/04/2012


VIAGEM
Da vontade de ir
inquieta-me o prazer de partir.
Do desejo de voltar
invade-me a doce alegria de regressar.

Nicoletta Ceccoli

01/04/2012


ACREDITAR
Anita não acredita em Deus. 
Não sabe quando aconteceu ao certo (nem sempre foi assim), mas um dia deixou de acreditar... assim, tranquilamente, sem dramas, nem culpabilidade.
Houve momentos na sua vida, principalmente naqueles em que se impunha tomar uma decisão importante, que desejou ser crente, sentir em si a devoção necessária para colocar a sua vida nas mãos de alguém que todos conhecem, mas que nunca ninguém viu.
Anita gosta do ritmo das orações na missa, mas quando se concentra no conteúdo de uma avé-maria, não consegue encontrar significado nas palavras desse murmúrio colectivo.
Não há nada a fazer... Anita não acredita em Deus. 
Mas acredita que tem um anjo.



28/03/2012

NÓS
Desata-me.
Procura uma ponta solta
puxa devagarinho um fio de mim
sente o nó que se abandona nos teus dedos
e se desfaz suavemente.
Depois
desenrola-te de ti
e enrola-te em mim
ata-nos
com um só nó 
firme e muito apertado.




22/03/2012

BRISA
Um calor suave, doce e morno
afagou-lhe delicadamente a face.
Pareceu-lhe um suspiro.
Pareceu-lhe um beijo.
Mas o dia estava ventoso.
Talvez fosse somente uma brisa cansada, fugida da tempestade
à procura de um abrigo para repousar.
Nicoletta Ceccoli

20/03/2012

ENCONTRO
Avistaram-se ao longe e aproximaram-se rapidamente, com a pressa da saudade. Ele, caminhando com passos largos e seguros, ligeiramente arrastados. Ela, com passos leves e saltitantes, repletos de energia. Frente a frente, olharam-se longamente e sorriram.
- Finalmente!
- Sim, finalmente... já lá vai tanto tempo!
- Um ano... um longo e interminável ano.
- Estava com saudades tuas...
- Eu também.
- Estás bonito... mas talvez um pouco cansado, não?
- Sim, um pouco... e tu estás linda!
- Obrigada, preparei-me especialmente para este encontro.
Ele sentiu-lhe o perfume de flores e desejou provar o morango que ela trazia nos lábios. Ela sentiu-lhe o perfume de chuva e desejou perder-se no seu cabelo de neve.
- Tenho de ir...
- Não queria que fosses...
- Sabes que tem de ser... estão todos à minha espera, não os posso desiludir.
- Mas eles estão bem, garanto-te.
- Mas estão sós e rapidamente darão por isso. Entre a tua partida e a minha chegada só pode haver este instante, nada mais do que isso.
- Eu sei. Achas que nos poderemos encontrar algumas vezes?
- Acho que sim, gostava muito.
- Quando?
- Não sei, não depende de mim, nem de ti... talvez em abril, numa tarde chuvosa, ou numa noite de orvalho em junho.
- Ou numa manhã fria de maio...
- Sim... seria magnífico.
- Agora tens de ir, não é?
- Sim, tenho mesmo.
Abraçaram-se e, nesse instante, a noite fez-se dia e o dia acordou.
- Este ano também vais encontrar-te com ele?
- Sabes que sim.
- Gostava que fosses só minha...
- Mas sabes que não pode ser assim... tu e eu só existimos porque ele e todos os outros existem... cada um de nós só tem sentido porque é a parte que falta ao outro.
- Eu sei... onde acaba um, começa outro e esse outro, chegada a hora da partida, só vai quando um outro chegar.
- Pois, é assim mesmo.
- Eu sei, é assim mesmo e não se pode mudar.
- Adeus! Gosto muito de ti.
- Também gosto muito de ti, Primavera.

Caitlin Rigby


19/03/2012

AVENTURA
Contaste-me que uma voz autoritária te chamou. E que te sobressaltaste, entregue que estavas à tua angústia expectante. A voz autoritária pertencia a um corpo imponente, corpo esse que trazia nos braços algo envolto numa manta amarela que, estranhamente, te pareceu familiar. A voz autoritária e o corpo imponente aproximaram-se de ti e, num ápice, depositaram nos teus braços o embrulho amarelo. Contaste-me que sentiste uma série de coisas que não soubeste nomear na altura. Acho que continuas a não saber. A voz autoritária e o corpo  imponente afastaram-se e deixaram-te só, com um embrulho amarelo nos braços. Só então olhaste. Só então viste. E foi nessa altura que o arrepio se fez calor e o medo se fez tranquilidade. Não me disseste, mas tenho a certeza de que terás sorrido.


Sandra Bierman

18/03/2012

TUDO
De pouco ou quase nada serve desejar tudo porque
todo o desejo se evapora 
pela noite fora
e do desejo de tudo
fica pouco
ou quase nada.
Por isso,
esta noite não desejo
porque de pouco ou quase nada serve desejar tudo.


Tommy Ingberg