12/03/2012

LÓGICA
Preciso urgentemente de encontrar uma lógica para tudo isto. Saber em que sítio os acontecimentos se cruzam e se tocam, para depois os ordenar e com eles construir uma história que faça algum sentido, nem que seja só para mim.
Elvira voltava feliz para casa, depois de uma festa de carnaval. O carro despistou-se na auto-estrada...  continua à procura do caminho de volta, deitada numa cama de hospital.
Alberto e Luísa ansiavam por uma noite de calor. No tão esperado momento do encontro, a ponte que os unia ruiu e caíram ambos no rio que os separava... Alberto não encontrou Luísa, Luísa não encontrou Alberto.
Maria achava o mundo muito cinzento... decidiu recolori-lo, já pintou o céu, o mar e uma magnólia, mas ainda não sabe de que cores se faz a paixão.
Álvaro queria o afecto de Amélia, mas pediu-lhe dinheiro para cerveja... ela deu-lhe um olhar de desprezo e ele, sóbrio e inseguro, partiu-lhe a televisão.
Carlos passou o dia todo sem saber o que fazer com as mãos... acabou por escondê-las nos bolsos do casaco. À noite, as mãos estavam frias e carentes e os bolsos completamente rotos.
Leonor queria ser artista. Subiu para cima da mesa da sala de estar, esqueceu o mundo, cantou e dançou e, no final, agradeceu com uma vénia elegante os aplausos do seu cão espectador.
Cristina tinha dores de cabeça... para além disso, doíam-lhe as pernas e os braços, a barriga e as costas, os pés e as mãos... todos os dias, tomava dezenas de comprimidos para as dores. Nenhum deles era capaz de suavizar a angústia que lhe queimava o peito.
E eu, espectadora incrédula, continuo a precisar de encontrar uma lógica para tudo isto. Percebi isso hoje à tarde, quando olhava para o jardim... não chove, a terra está seca e nas árvores as flores nascem mortas.

Marjan Vafaeian

07/03/2012

RITUAL
Todas as noites, o mesmo ritual. Escovava os dentes, penteava-se, vestia o pijama, fazia uma festa no gato, deitava-se, apagava a luz e esperava por ele.
Todas as noites, a mesma sequência de gestos. Voltava a acender a luz, pegava no livro, lia duas páginas e voltava a fechá-lo. Levantava-se e ia à cozinha, bebia um chá, sossegava com um afago o gato sobressaltado, voltava a deitar-se, voltava a apagar a luz, voltava a esperar por ele. De olhos abertos, distraía-se tentando discriminar o contorno dos objectos na escuridão do quarto. Acalmava a ansiedade da demora, recordando a sensação de frescura com que acordava nas manhãs que concluíam as noites em que ele chegava cedo. Tentava esvaziar a cabeça de todos os pensamentos e murmurava em silêncio a melodia de todas as noites de espera. Por fim, sentava-se na cama, olhava o relógio, suspirava e convencia-se, definitivamente, de que ele não viria. Mais uma vez a tinha deixado à espera, mais uma vez não tinha aparecido.

 Pablo Picaso


Tirou da gaveta o minúsculo comprimido e engoliu-o sem água. Deitou-se e apagou a luz. Afundou a cabeça na almofada e fechou os olhos. Sentiu-o aproximar-se devagarinho.
O sono estava a chegar.

05/03/2012

PERSEGUIÇÃO
Disse-me que estava a ser perseguido. Perguntei-lhe por quem. Respondeu-me que era perseguido por toda a gente. Fingi que acreditava e perguntei-lhe o motivo de tal perseguição. Disse que não sabia. Questionei qual seria a finalidade de tudo aquilo. Respondeu que não havia qualquer finalidade, era apenas assim.
Deixei de ter perguntas para fazer. Adivinhou o meu vazio e disse-me, em tom tranquilizador, que nem todos os perseguidores eram uma ameaça. Perguntei-lhe como conseguia distinguir uns e outros. Respondeu-me que uns olhavam através de si e que outros olhavam para si. Ficou em silêncio, à espera da minha conclusão. Percebi a lógica, mas duvido sempre do óbvio.
Disse-lhe que ia pensar no assunto. 

Yuri Annenkov

04/03/2012


SEGREDO
Se eu te disser que hoje há primavera dentro de mim, por favor, não contes a ninguém. Sei que sabes do que falo. Sabes do vento que me despenteou o cabelo e do céu que me entrou no corpo. Sabes do sol que me aqueceu o olhar, dos passos incertos a ver o mar e das tuas mãos cheias de tudo para me dar. Sei que sabes do que falo, ambos sabemos. Mas, por favor, não contes a ninguém. 
Guarda este segredo no bolso seguro do teu casaco de inverno.

                                                                                                            Ada Breedveld

01/03/2012

ARTUR
Artur queria escrever.
Prestes a sufocar, necessitava urgentemente de se livrar de todas as palavras presas na garganta. Sentia falta do vazio deixado pelas palavras que são libertadas, do prazer de se poder ler a si próprio, como se de outro se tratasse.
Folheou e voltou a folhear o caderno de apontamentos, à procura de uma ideia, de uma palavra suficientemente forte para o arrancar daquela torturante passividade. Mas o caderno nada lhe disse e ele nem forças teve para protestar.
Apetecia-lhe escrever algo doce e, por isso, decidiu adoçar-se.
Foi à cozinha e decidiu comer morangos. Não os achando suficientemente doces, colocou-lhes açúcar… como nem assim encontrou a doçura de que precisava, cobriu-os com mel. Mas o travo amargo continuou e o silêncio permaneceu.
Saiu para a rua era já noite fechada e andou até de madrugada em busca das palavras doces de que precisava. 
Não sei se as encontrou. 
Já é de manhã, mas janela do seu quarto está fechada. 
Talvez esteja a dormir. Talvez esteja a chorar.
Talvez esteja a escrever.




29/02/2012

EMPRESTAS-ME?
Empresta-me um lápis ágil
capaz de escrever à velocidade do desejo
capaz de contornar recordações
de evitar divagações e
de confundir inquietações.
Um lápis robusto
sem medo de constatações
ou de desilusões.
Empresta-me um lápis suave
que se abandone à maciez branca do papel
e não se esqueça da paixão, do mar e do mel.







27/02/2012

VOAR
Apeteceu-lhe voar... assim, sem mais nem menos, sem nada que o fizesse prever, deu-lhe uma vontade súbita e incontrolável de voar. 
Saiu para o jardim, encostou-se ao tronco do limoeiro, abriu muito os olhos para matar a sede de luar, despiu-se do dia e ofereceu-se à noite.
Fez-se leve e saltou. 
Finalmente, voou.


Nicoletta Ceccoli