15/02/2012

BICICLETA
Tirou-a com custo do canto onde dormia há muito tempo. Estava coberta de pó e fuligem. Lavou-a e limpou-a. Deu-lhe brilho.
Subiu com cuidado, procurou os pedais, ensaiou um movimento suave e deixou-se deslizar.
Ainda era capaz. Estava tudo pronto.
Aconchegou-se e acenou alegremente ao vizinho.
Ela esperava-o.
Era tempo de partir.
A vida não espera para sempre.

Prastene Pohadky


14/02/2012

REGA-ME
Talvez não tenhas dado conta, mas é quase primavera.
Corta-me estes galhos secos, restos do frio que me queimou, já de nada servem, apenas me impedem de crescer. Corta as ervas daninhas, tira as pedras, revolve a terra à minha volta.
No final, rega-me. Com água fresca. Todos os dias.
Uma destas manhãs, verás que estou mais verde. 
Nesse dia, saberás que é primavera.  

Gustav Klimt

12/02/2012


ENTENDES?
- Entendes o que quero dizer?...
- Não.
- Quero dizer que pode haver uma grande diferença entre aquilo que vês e a forma que isso vai tomar quando estiver dentro de ti. Ou seja, tu tens a capacidade de moldar o que te entra pelos olhos dentro. Percebes agora?
- Mais ou menos... mas há coisas que são o que são, certo? Não mudam só porque olhas para elas!
- Mas são exatamente essas coisas que mudam! As coisas que observas e que levas contigo.
- Estou confuso... mas diz-me uma coisa: um ovo é e será sempre um ovo, certo?
- Depende...
- Depende de quê?!?
- Daquilo que o teu olhar oferece ao ovo e daquilo que o ovo te retribui. É esse fragmento que fica em ti... e com ele, farás o que quiseres.
- Agora é que não estou a perceber nada...

René Magritte

11/02/2012


FAZ-ME UM CHÁ
Dói-me a cabeça, tenho o corpo inerte e já nem sei de mim.
Está frio, a pele escalda e lá fora está sol.
Faz-me um chá.
Quente, por favor.
Junta-lhe um beijo, um afago suave
junta-lhe um segredo e uma pitada de canela.
Acrescenta uma gota de mel
e, no final, um pedaço de ti.
Depois
aconchega-me no colo
e deixa-me beber-te devagarinho.

Jessica Angiulli

10/02/2012


PRIMAVERA
Sentindo um cansaço imenso pelo interminável inverno gélido, decidiu sentar-se um pouco.
O banco vermelho adivinhou-lhe a vontade e arrastou-se até si.
Ela fez-se o mais flexível possível, ondulou o tronco seco e deixou-se escorregar suavemente.
Ele fez-se o mais macio possível e as suas traves desbotadas acolheram-na com ternura.
Ela sentia-se constrangida, envergonhada até - uma árvore não se senta, mantém-se erguida dia após dia, toda a vida.
Ele disse-lhe que tinha estado à espera dela durante todo o inverno.
Falaram de primavera. De chuva, sol e relva. De folhas e flores e de tinta vermelha.
De baloiços, crianças, piqueniques e beijos. 

Sarolta Bán

09/02/2012


NÃO TE PREOCUPES
Não te preocupes. Entre nós, não existe tempo.
Os dias acompanham-nos, lado a lado. As memórias misturam-se com os sonhos de futuro e, juntos, constroem um caminho de sorrisos e flores que vamos pisando alegremente.
Que importa se as tuas mãos são quase tão grandes como as minhas?
Que importa se as tuas palavras conseguem envergonhar as minhas?
Que importa se o teu horizonte está cada vez mais distante de mim?
O meu colo terá sempre o tamanho certo para ti e o teu cheiro será sempre doce e morno como no primeiro dia.
Não te preocupes. Eu não me preocupo. Entre nós, não existe tempo.

Wilhelm Lehmbruck

08/02/2012


ESPERA
Tinha nos olhos o cansaço da demora e a boca fechada por ter esquecido todas as palavras que sabia.
Debruçada no parapeito da janela entreaberta, esperou. O dia fez-se noite e a noite novamente dia.
Uma rajada de vento escancarou a janela. Passos apressados na rua.
Arranjou o cabelo, pintou de alegria os olhos cansados e ensaiou ao espelho uma única palavra. 
Saudade.
Amedeo Modigliani