07/02/2012


NAVE ESPACIAL
Pegou nos trastes velhos que tinha na arrecadação... serrou, partiu, colou, soldou, atou, limou, pintou... e acreditou. Já de madrugada, arrastou-a para o quintal. Olhou-a com carinho e orgulho. Meteu-se lá dentro, fez-se forte e corajoso e remou pelos céu. Via-a ao longe, brilhante e sorridente, com a sedução no olhar e a tranquilidade no sorriso. Disse baixinho – estou quase a chegar! – e, com a força que só  o sonho pode dar, remou até ela de um só fôlego, com a determinação de quem está certo que aquela seria a última noite de lua cheia.


06/02/2012

A TORRE
- Porque me trazes um espelho?
- Para te veres...
- A propósito, tu és quem, ou melhor, o quê?
- Sou quem tu quiseres ver.
- Pareces um peixe, mas tens cara de gente e asas nas   costas... és muito  estranho!
- Sou o reflexo do que desejas... tu gostas de peixes vermelhos... mas como poderia chegar até aqui, tão alto, sem asas para voar? E como poderia conversar contigo, se não tivesse olhos capazes de falar?
- E as maçãs?...
- São para ti, disseste que tinhas fome de vermelho e de doçura...
- Sim, é verdade. Obrigada.
- Não tens de agradecer. Eu só existo porque me inventaste.
- Voltas?...
- Se o desejares.... Basta vires até aqui, fechar os olhos e chamar-me.

ilustração _ nicoletta ceccoli






FLOR DE INVERNO
- Como te chamas?
- Porque queres saber?
- De tanto te olhar já te conheço bem, mas falta-me o nome, um nome para te chamar...

Ela fitou-o com um ar cúmplice. Ele lembrou-se do cheiro da relva molhada pela chuva.

- Podes chamar-me o que quiseres.
- Sim? Então vou chamar-te Flor de Inverno.
- Flor de Inverno... flor rara.. flor única... flor efémera?
- Não, simplesmente Flor de Inverno.


A ESCADA
Havia qualquer coisa de assustador naquela escada. Mesmo assim, decidiu experimentar. Estranha sensação... à medida que se subia, mais íngreme se tornava a descida. 
Ao longe, uma névoa...
Absolutamente indefeso quanto  ao que estaria por detrás da cortina de nevoeiro, continuou subindo (ou descendo?), ofegante pela antecipação da conquista do topo, amedrontado pela emoção da queda vertiginosa. 




05/02/2012


COMEÇAR


Com a janela entreaberta

faz-se de luz ténue e doçura

esta aventura do começar.